Capítulo Cinco: Cinco Milhões de Dólares
— Daozhang, este chá foi preparado para Mark? — A voz rouca e trêmula de Ying Caihong soou.
Ao ouvir isso, Cao Yi lançou um olhar à xícara de chá Biluochun ainda fumegante sobre a mesa de pedra e assentiu:
— Exatamente.
Quando adentrara a cozinha há pouco, ouvira vagamente o som de um automóvel. A julgar pelo isolamento do local, circundado por centenas de metros de floresta, deduzira que o recém-chegado devia ser algum subordinado de Ying Caihong. Por isso, servira uma xícara a mais.
— Isso… como pode ser possível? — O rosto de Ying Caihong, já pálido por anos de sofrimento e doença, empalideceu ainda mais diante da confirmação de Cao Yi. Seu corpo vacilou, e só não tombou ao chão porque se apoiou a tempo na borda da mesa de pedra.
Durante toda a vida, ela zombara das verdadeiras religiões, dedicando-se a cultos hereges e à manipulação das massas. Agora, diante de alguém dotado de autêntico poder religioso, não pôde evitar o temor: se realmente existiam deuses neste mundo, não seria ela julgada, no fim, por suas ações?
— Senhora Ying, tome o chá — convidou Cao Yi, que já se sentara, erguendo a xícara com um sorriso apaziguador.
— Ah… sim, chá — respondeu Ying Caihong, sentando-se com rigidez e levando a xícara trêmula aos lábios.
— Na verdade — Cao Yi tomou um gole, e o sorriso cedeu lugar à gravidade —, no túmulo da Deusa, além da flor do outro lado, há ainda algo aterrador.
— Algo aterrador? — Ying Caihong ergueu os olhos, perplexa.
— Um cadáver milenar — Cao Yi articulou pausadamente cada sílaba.
Antes da partida, o sistema lhe confiara uma missão secundária: subjugar um cadáver milenar. Isso significava que, no túmulo da Deusa, havia grande possibilidade de existir uma criatura dessas — algo que não constava na trama original.
— Um cadáver milenar! — Ying Caihong, tomada de pavor, deixou cair a xícara; chá e folhas escorreram pela pedra.
Qualquer filho da China sabe o que essas quatro palavras representam.
— Um cadáver milenar nasce da concentração de ressentimento e impureza acumulados por séculos; não teme ferimento algum. Uma vez que desperte, mesmo que obtenha a flor do outro lado, será quase impossível sair vivo — advertiu Cao Yi, transmitindo a ela o pouco que sabia sobre tais seres.
— Não teme ferimento algum… — Ying Caihong franziu o cenho, já quase convencida. As demonstrações de precognição e poder sobrenatural de Cao Yi haviam-na conquistado. Sentia-se profundamente insatisfeita ao perceber que sua última esperança se esvaía como espuma.
Lançou um olhar de súplica a Cao Yi, rogando que aquele misterioso Daozhang a auxiliasse.
— Na verdade, mesmo que você não viesse, eu, como sacerdote da tradição Zhengyi, não poderia esperar sentado pelo despertar de um cadáver milenar e deixar que flagelasse o mundo dos vivos — declarou Cao Yi, a voz grave.
Ying Caihong, surpreendida pelo inesperado alívio, deixou transparecer emoção no rosto lívido:
— Excelente! Se conseguirmos a flor do outro lado, pagarei cinco milhões de dólares ao senhor.
Cao Yi sorriu, sem responder.
— Onde fica o salão dos deuses? Gostaria de prestar uma homenagem — disse repentinamente Ying Caihong.
— Por ali — indicou Cao Yi.
— Daozhang, volto em instantes — disse ela, erguendo-se e dirigindo-se ao templo.
Cao Yi observou sua figura afastar-se, achando graça da situação: a sumidade de um culto herege, intimidada por seus poderes sobre-humanos, corria até o salão dos deuses em busca de consolo espiritual. Se o Daozu — supondo que fosse uma entidade consciente — tomasse conhecimento disso, o que pensaria?
Poucos minutos se passaram quando a voz de Yoko soou do lado de fora:
— Mestre venerável, Mark diz que nunca viu um sacerdote taoísta e faz questão de conhecê-lo.
Ao olhar, Cao Yi viu um homem e uma mulher à soleira. A mulher era Yoko, que acabara de sair, trazendo um telefone portátil vermelho, idêntico ao de Ying Caihong. O homem, de estatura mediana e terno impecável, devia ser Mark, o representante da Universal Mining que, na trama original, assinara contrato com Wang Kaixuan e Da Jinya numa cervejaria.
— Onde está a senhora venerável? — Yoko, sem encontrar Ying Caihong, demonstrou surpresa.
— Foi ao salão dos deuses — respondeu Cao Yi displicentemente.
— O quê? A senhora venerável foi homenagear o seu deus? — O espanto de Yoko era patente.
Aos olhos dela e dos demais seguidores, Ying Caihong era uma deidade viva. Para uma deidade viva ir prestar culto a outra num templo… era uma inversão completa de seus paradigmas.
— O Daozu não é um deus qualquer, mas o Caminho em si — corrigiu Cao Yi, esclarecendo um equívoco comum sobre o taoismo.
— Se não é um deus, por que chamam o lugar de salão dos deuses? — Yoko retrucou, pronta.
Que língua afiada, pensou Cao Yi com um sorriso, e explicou:
— Chama-se salão dos deuses por conveniência, para facilitar o entendimento e aceitação do público.
Mas Yoko não se deteve em discussões religiosas enfadonhas e foi direta:
— Durante o tempo em que estive fora, o que conversou com a senhora venerável? Quanto dinheiro lhe extorquiu?
Cao Yi nada disse, apenas ergueu cinco dedos.
— Quinhentos mil dólares? — Yoko semicerrava os olhos, insatisfeita, embora esse fosse o valor sugerido por Ying Caihong antes. Para ela, Cao Yi não passava de um charlatão.
— Cinco milhões de dólares — corrigiu Cao Yi, sereno, como se a quantia fosse mero detalhe.
— O quê? Cinco milhões de dólares?! —
Yoko quase saltou de espanto. A cifra ultrapassava em muito sua capacidade de assimilação.
Cao Yi apenas sorriu e assentiu.
— Seu vigarista! — Os olhos de Yoko ardiam; o telefone vermelho em sua mão rangeu, ameaçando ser arremessado a qualquer instante.
— Foi uma troca de vontades — respondeu Cao Yi, impassível.
Yoko, de natureza explosiva, não pôde mais se conter ao ver Cao Yi sair-se tão bem, e lançou o telefone com força.
Se fosse em seus tempos de homem comum, Cao Yi teria se esquivado. Mas, após a transformação do Elixir Dourado, seu corpo superava em muito o de qualquer mortal. O telefone vermelho voou como uma flecha mas, aos seus olhos, o mundo parecia desacelerar. Com dois dedos, ele prendeu o aparelho no ar, sem esforço.
Nos olhos de Yoko brilhou uma centelha; apoiou-se no chão com ambos os pés e, ágil como uma pantera em caça, lançou-se sobre ele. Iniciou um ataque de karatê — arte marcial nacional do Japão — com uma ferocidade e potência assustadoras. Um lutador comum já teria sido derrotado.
— Uma luta impressionante — elogiou Cao Yi, confiando em sua constituição aprimorada; antecipava cada movimento de Yoko, que jamais o atingia.
Após mais de três minutos de combate, Yoko, exaurida, teve de recuar.
Palmas repentinamente ecoaram.
Ao virar-se, Cao Yi viu Mark, que assistira à cena todo o tempo. O estrangeiro tinha o rosto ruborizado de excitação, claramente um entusiasta de lutas.
— O que significa isso? — irritada por não conseguir vantagem sobre Cao Yi, Yoko voltou-se contra Mark.
— Há muito não via um duelo tão espetacular, especialmente a performance da senhorita Yoko, excelente — Mark não poupou elogios.
Bajulação não é privilégio exclusivo da China!
A expressão de ira de Yoko suavizou-se um pouco.
— Contudo, o sacerdote parece carecer de força; diante dos ataques da senhorita Yoko, sempre recua — acrescentou Mark.
Neste instante, a porta do salão rangeu e Ying Caihong saiu, ouvindo as palavras de Mark. No rosto, formou-se uma expressão singular.