Capítulo 3: A Transação
Enquanto isso, o homem de cabelo rente avançou e impediu Chen Xi de sair.
O movimento de Chen Xi em direção à porta cessou; ao notar o semblante vigilante do homem, ela pôde intuir suas intenções. Virou-se para Gao Zhexing e declarou, com solenidade: “Não revelarei a ninguém sobre seu ferimento.”
Gao Zhexing, porém, respondeu: “Senhorita Chen, por favor, aguarde e descanse no quarto ao lado.”
Mal ele terminou de falar, o homem de cabelo rente fez um gesto convidando Chen Xi a acompanhá-lo. O olhar de Chen Xi percorreu os rostos dos dois; era evidente que não pretendiam deixá-la partir, e havia, inclusive, uma ameaça velada em sua atitude.
Pensou em estratégias para escapar, mas o homem não lhe deu tempo para refletir: conduziu-a rapidamente ao quarto adjacente, trancando a porta com uma fechadura eletrônica.
Ao se fechar a porta pesada, os dedos de Chen Xi ficaram ligeiramente frios. Sem nenhum aparelho de comunicação consigo, seria mentira afirmar que não sentia medo, mas, vivendo em uma sociedade regida pelo direito, ela acreditava que não chegariam ao extremo de silenciá-la para sempre.
Olhou para a janela, ponderando se deveria tentar escapar por ali, mas, inexplicavelmente, uma onda de sono a invadiu; tombou no sofá.
No cômodo ao lado,
O homem de cabelo rente falou: “Senhor Gao, o assistente Sun providenciou a limpeza do local, não restará vestígio algum. O tradutor que o feriu está detido; por ora, ninguém saberá de seu machucado. O helicóptero chegará em cerca de trinta minutos. Podemos retornar...”
Gao Zhexing, contudo, permanecia sereno, como se o ferimento não fosse digno de nota, interrompendo-o: “Mande que voltem. O encontro com Long Ze amanhã ocorrerá como previsto.”
Surpreso, o homem indagou: “Senhor Gao, mesmo ferido, irá ao encontro...?”
Gao Zhexing, pressionando o ferimento, sentou-se e tornou a interromper: “Eles escolheram este momento para agir porque querem impedir meu encontro com Long Ze. Como posso permitir que alcancem seu intento?”
O homem, que o seguia há anos e conhecia bem seu caráter, engoliu as palavras, silenciou por dois segundos e perguntou: “E quanto à senhorita Chen, como procederemos?”
Um brilho agudo reluziu nos olhos de Gao Zhexing: “Descubra por que ela compareceu ao leilão esta noite.”
Na manhã seguinte,
Ao despertar, Chen Xi demorou a perceber onde estava. Ao olhar para a mesa, viu o incenso sobre uma base de lótus completamente consumido, compreendendo, enfim, a razão de ter desmaiado na noite anterior: o incenso fora adulterado.
O quarto dispunha de banheiro; após lavar o rosto, ao sair, deparou-se com o homem de cabelo rente à porta: “O senhor Gao deseja vê-la.”
Ao chegar à sala, sua primeira impressão foi de um ambiente impecavelmente arrumado, sem vestígios de sangue; Gao Zhexing, por sua vez, encontrava-se sentado à mesa de jantar, impecavelmente vestido em um terno.
Seus traços eram profundos e marcantes, sobrancelhas em ângulo, olhos límpidos, nariz aquilino e lábios finos; a elegância de sua figura só era desmentida pela palidez do rosto, que, não fosse por ela, ninguém imaginaria a gravidade do ferimento. Ao ver Chen Xi, sorriu delicadamente: “Senhorita Chen, permitiria que me acompanhasse no café da manhã?”
Embora o sorriso fosse afável, havia nele uma imposição impossível de recusar.
Chen Xi sentou-se diante dele e, só após beber um gole de chá quente, teve forças para fazer a pergunta que mais lhe preocupava: “Senhor Gao, vejo que já está quase recuperado. Quando poderei partir?”
Gao Zhexing depôs os talheres, enxugou os lábios com o guardanapo e falou pausadamente: “Senhorita Chen, veio aqui para arrematar uma pintura a óleo, não?”
“A pintura... Como sabe que eu...” Chen Xi interrompeu-se ao notar, sobre a mesa atrás de Gao Zhexing, a mochila que deixara em seu quarto; todos os documentos da senhora Fang estavam ali, então não era surpresa que ele soubesse de sua intenção de adquirir a pintura.
Indagou, então: “Senhor Gao, sabe quem comprou a pintura?”
Gao Zhexing não respondeu; propôs: “Senhorita Chen, que tal fazermos um acordo?”
Chen Xi, intrigada: “Um acordo?”
Gao Zhexing tamborilou os dedos na mesa e expôs sua condição: “Preciso encontrar um japonês, e quero que seja minha intérprete. Em troca, lhe darei a pintura.”
O trato parecia vantajoso, mas Chen Xi tinha suas reservas: não conhecia Gao Zhexing e, principalmente, a estranheza de seu ferimento na noite anterior a fazia hesitar em se arriscar.
Após breve pausa, disse: “Com todo respeito, senhor Gao, se nem sua própria segurança está garantida, não posso confiar em sua promessa.”
Os olhos de Gao Zhexing se estreitaram, o olhar tornou-se perigoso; era evidente sua aversão a negociações. Um sorriso tênue curvou seus lábios: “Senhorita Chen, desde o instante em que pisou aqui, sua liberdade não está mais sob seu controle.”
Ele proferiu essas palavras com uma tranquilidade imperturbável, mas Chen Xi sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
No entanto, diante do medo extremo, desenvolveu uma coragem obstinada, encarando Gao Zhexing e contestando: “Vivemos numa sociedade regida pela lei; prisão ilegal é passível de punição judicial.”
Gao Zhexing riu com desdém: “Prisão ilegal?”
Ele fez uma pausa carregada de significado, e completou, com malícia: “Já pensou que só poderá me denunciar se conseguir sair por esta porta?”
Nunca antes Chen Xi fora ameaçada dessa forma; ficou aturdida, incapaz de reagir.
Sem que percebesse, Gao Zhexing já se levantara e postou-se diante dela, olhos semicerrados, como um lobo encurralando sua presa.
Erguendo-se sobre Chen Xi, prolongou o tom: “Senhorita Chen, sou um homem vingativo. Se não aceitar este acordo, jamais terá aquela pintura.”
“Você...” Chen Xi ficou sem palavras.
Naquele instante, percebeu o quanto errara ao supor, quatro anos atrás, que ele era um cavalheiro. A história do senhor Dongguo e do lobo não lhe era estranha, mas jamais imaginara que um dia ocuparia o papel do “senhor Dongguo”, salvando um lobo ferido, para depois ser ameaçada por ele.
Gao Zhexing saboreou o pânico estampado em seu rosto e, aproveitando o momento, insistiu: “Senhorita Chen, não há outra escolha.”
O medo a dominou, e sua mente se embaralhou, impedindo-a de responder.
Enquanto permanecia em silêncio, Gao Zhexing pousou o olhar sobre ela. Embora já a tivesse visto antes, era a primeira vez que a observava com atenção.
À luz, sua pele parecia translúcida, alva como jade; o rosto oval, de traços suaves sem vestígio de infantilidade, e os lábios cerrados revelavam a tensão de seu ânimo, mas eram viçosos e delicados.
Não era uma mulher de beleza arrebatadora à primeira vista, mas quanto mais se olhava, mais difícil era desviar o olhar—havia nela uma aura intrigante e sutil.
Chen Xi recobrou o fôlego, seus olhos vivos encontraram os olhos profundos de Gao Zhexing; a atmosfera entre ambos mudou num instante, o ar carregado de um fluxo de ambiguidade, nascido da proximidade entre homem e mulher.
Gao Zhexing disfarçou e desviou o olhar.
No instante em que seus olhares se cruzaram de tão perto, Chen Xi recordou subitamente o encontro de quatro anos atrás; seu coração, involuntariamente, acelerou.
Mas foi apenas um momento; ao lembrar de sua situação atual, reprimiu as emoções indevidas e indagou: “Senhor Gao, certamente não lhe faltam intérpretes profissionais. Por que me constranger?”
Gao Zhexing ergueu as sobrancelhas: “Senhorita Chen, pode exercer a medicina e domina o japonês; com uma pessoa de seu calibre à disposição, por que buscar longe o que está perto?”
Chen Xi observou Gao Zhexing, assustada com sua perspicácia; sabia de sua história, e ainda por cima sabia extrair dela o máximo proveito.
Gao Zhexing, em tom sedutor, acrescentou: “Senhorita Chen, este é um negócio vantajoso para você. Francamente, com suas habilidades, dificilmente conseguiria recuperar aquela pintura por conta própria.”
Chen Xi não sabia discernir a veracidade de suas palavras, mas, diante das circunstâncias, sem ajudá-lo, dificilmente conseguiria deixar aquele lugar.
Queria sondar mais, então perguntou: “Diga-me primeiro, quem comprou a pintura?”
Antes que Gao Zhexing pudesse responder, uma súbita agitação irrompeu do lado de fora.