3. Desespero, o verdadeiro mundo dos piratas
“Ei! Não é possível! Ainda que seja um escravo, vale apenas dez mil belis? Nós corremos um grande risco, afinal.”
“Erwin, não preciso nem conhecer vocês. Basta olhar para esse sujeito para perceber que é um mendigo ou alguém abandonado. Comparados aos grupos oficiais de caçadores de escravos, vocês só conseguem capturar esse tipo de mercadoria. Se não fosse por sermos velhos conhecidos, eu nem aceitaria um escravo desses.”
“Se eu pudesse me juntar a um verdadeiro grupo de caçadores de escravos, acha que precisaria vir até um leilãozinho como o seu?”
“Já chega, já chega. Aqueles grandes leilões só vendem artigos de luxo. Nós, em casas de leilão pequenas, só podemos seguir a linha popular.”
“Está bem, dez mil belis então! Afinal, não me custou esforço nenhum capturá-lo. Agora ele é seu.”
Atordoado, Ye Chen sentia uma dor lancinante na cabeça; vagamente, ouvia a conversa de alguns homens ao seu lado.
Sacudiu a cabeça, esforçando-se para recuperar a lucidez, mas logo foi tomado pelo terror ao perceber que estava amarrado de pés e mãos. Pelo que ouvira, parecia ter sido capturado por um grupo de caçadores de escravos e agora seria vendido.
Mesmo Ye Chen, por mais ingênuo que fosse, compreendia que, ao tornar-se escravo, o restante de sua existência seria mergulhado em trevas.
Quanto ao motivo de compreender aquelas palavras, ou mesmo de poder falar, era algo tão natural quanto o conhecimento sobre as Frutas do Diabo: simplesmente acontecia, sem explicação.
“Olha só, acordou.”
Após a negociação, um sujeito de ar malandro colocou-se diante de Ye Chen. Com as notas recém-recebidas, bateu no rosto do rapaz, gargalhando: “Obrigado pela contribuição dos seus dez mil belis.”
“Pegou o dinheiro, pode ir.” O comprador de Ye Chen era outro homem, de óculos e aparência um tanto distinta, chamado Ansrag, gerente de uma pequena casa de leilões.
“Até mais.” Erwin acenou com o dinheiro e virou-se, seu semblante subitamente sombrio, pensando consigo: “Hmph, quando eu entrar para um verdadeiro grupo de caçadores de escravos, você é que vai vir me implorar.”
“Levem-no. Tem um rosto delicado, deve agradar a muitas madames abastadas. Talvez renda algumas dezenas de milhares de belis e recupere o investimento. Está meio magro, mas tem pele macia; com alguns dias de trato, ficará perfeito.”
Ansrag ordenou aos dois subordinados, satisfeito: dentro de poucos dias haveria um leilão e faltava-lhe um escravo de feições delicadas. Não esperava que Erwin, aquele marginal, trouxesse-lhe um desses de bandeja.
“Sim, senhor.”
“Soltem-me! Soltem-me, o que pretendem fazer…?”
Ye Chen debatia-se, mas sua mente estava em branco e, diante da força dos dois brutamontes, era impossível libertar-se.
Para alguém que sempre vivera sob a paz, um jovem recluso de dezesseis ou dezessete anos, tudo aquilo era impensável.
Pânico e desespero eram, para Ye Chen, as únicas reações possíveis naquele momento.
No mundo dos piratas, crianças de dezesseis ou dezessete anos já não eram mais crianças: haviam aprendido, sob as leis cruéis da sobrevivência, a lutar por suas vidas. Em maturidade e adaptabilidade, Ye Chen não podia se comparar.
Embora tivesse a mesma idade, sua mente permanecia presa à rebeldia da adolescência. Criado numa família que girava ao seu redor, nunca lhe faltou nada; desconhecia até as regras mais básicas do que se deve ou não fazer.
Num mundo de devoração mútua, comparado a um mundo pacífico, não há dúvida: quem nunca sofreu sequer um revés será sempre um fracassado.
Ainda mais: naquele outro mundo, filhos únicos de vinte e poucos anos talvez fossem iguais a Ye Chen — eternamente infantis, mimados, inúteis.
Apenas aqueles que cresceram enfrentando adversidades compreendem o verdadeiro significado da vida.
E o mais importante: o corpo de Ye Chen era realmente o de uma criança, com apenas doze ou treze anos. Quanto às suas habilidades? Mal sabia fazer fumaça — de que adiantava?
“Porra, fica quieto aí!”
Talvez pela resistência de Ye Chen, um dos brutamontes se irritou e lhe desferiu um soco no estômago.
No mesmo instante, os olhos de Ye Chen saltaram, o rosto ficou lívido; sequer conseguiu gritar, apenas engasgava e se retorcia de dor.
Uma dor como jamais experimentara; as lágrimas escorreram incontroláveis de seus olhos.
Erguendo Ye Chen pelo colarinho, o brutamonte cuspiu no chão e rosnou: “Melhor ficar calado enquanto estiver comigo, senão vai sofrer. Não sei como aquelas madames com gostos esquisitos se interessam por esses moleques de pele macia!”
Resmungando, o grupo atravessou algumas ruas até chegar diante de um edifício abobadado.
Após atravessar um corredor, Ye Chen foi lançado numa cela. Ao redor, havia escravos de todas as idades e sexos, todos com expressões de terror ou já completamente desalentados, os olhos vazios, encolhidos num canto.
“Cof… cof…”
Encolhido, Ye Chen levou bom tempo até que a dor no ventre diminuísse. Ao olhar em volta, percebeu que muitos o fitavam com indiferença, sem um fio de esperança no olhar.
Confuso, sem saber o que pensar, limitou-se a procurar um canto e também se encolheu.
O tempo passou lentamente; de vez em quando, os guardas traziam comida.
Contudo, mesmo diante de refeições relativamente fartas, poucos disputavam — o que permitiu a Ye Chen saciar a fome.
Talvez um dia tivesse se passado, ou dois; Ye Chen enfim se acalmou. Passou a observar o ambiente, tentando descobrir um modo de escapar. Porém, tudo era inútil.
Pior ainda: aos poucos, alguns eram levados e, quando retornavam, estavam à beira da morte, com o peito ou as costas marcados com o ideograma de “escravo”.
Ye Chen sabia que, uma vez marcado, todos que o vissem saberiam que já fora escravo.
Passaram-se mais alguns dias. A porta da cela foi novamente aberta; dois homens entraram: um com um caderno de anotações, outro lançando olhares ferozes aos escravos.
“O número cinquenta, é ele. Tragam-no, marquem o sinal de escravo. Falta meio mês para o leilão.”
O homem com o caderno apontou para Ye Chen, ordenando ao brutamonte que o levasse.
O autocontrole de Ye Chen desvaneceu-se de imediato; tomado de pânico, lutou com todas as forças, mas só obteve como resposta violentos socos.
Pouco depois, foi levado a uma sala repleta de instrumentos de tortura; sobre o braseiro, vários ferros em brasa com o ideograma de “escravo” reluziam rubros.
Amarrado aos instrumentos, Ye Chen estava lívido de terror, vendo um dos homens aproximar-se com o ferro em brasa. Chorando, implorava:
“Não, por favor, não! Suplico, me deixe ir…”
A súplica de Ye Chen apenas excitava ainda mais o carrasco, que gostava especialmente daquele som.
“Zzz… zzz…”
“Ahhh…”
O cheiro de carne queimada misturava-se ao som do ferro em brasa; Ye Chen gritava, lágrimas jorrando como fontes incontroláveis.
Dor — uma dor insuportável; ao atingir o limite, seus olhos se fecharam e a cabeça tombou, desmaiando imediatamente.
“Muito fraco para aguentar. Levem-no; não deixem morrer. Jamais fazemos negócios em prejuízo.”
O homem do caderno olhou para Ye Chen como se fosse um inseto: para ele, Ye Chen não passava de uma mercadoria a ser vendida.
Moral? Compaixão? Piedade? Palavras vazias, inexistentes.
Neste mundo, é o homem que devora o homem; o poder reina absoluto, e tudo se resolve com os punhos.
…