Capítulo Seis: Companheiros de Infância — Jingū Hikaru
Se minha própria irmã fosse lésbica, não sei porquê, mas só de pensar nisso, Ye Qiu sentia-se ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre porque, se sua irmã gostasse de mulheres, ao menos não acabaria caindo nos braços de algum homem qualquer. Triste porque... Ye Qiu não sabia explicar o motivo. Se sua irmã realmente fosse lésbica, Ye Qiu decidiu que a apoiaria, afinal, ter mais irmãs seria melhor do que ganhar mais um cunhado.
Além do mais, se a irmã fosse lésbica, ela permaneceria sempre perfeita aos seus olhos. Embora sentisse que tal pensamento fosse egoísta, afinal, todos somos assim em algum grau.
— Eu e elas, claro que nos damos muito bem. Na verdade, são minhas únicas boas amigas — respondeu Luo Tianyi, sorrindo suavemente.
— Entendo! Se vão chegar perto do meio-dia, vou sair para comprar mais ingredientes. O que temos na cozinha não é suficiente. Depois, podemos almoçar todos juntos — ponderou Ye Qiu. Antigamente, apesar de ser um típico jovem recluso, ele não sabia cozinhar e costumava pedir comida pronta.
Neste mundo, Ye Qiu perdera os pais cedo e suas várias irmãs eram de uma preguiça incorrigível, incapazes de preparar sequer uma refeição. Até mesmo Rem, que agora desejava ser uma criada, não sabia cozinhar — o que, para Ye Qiu, era uma oportunidade: se a ensinasse, teria menos trabalho.
Se ninguém soubesse cozinhar e vivessem de comida pronta, seria um desperdício de dinheiro — e Ye Qiu, agora, precisava contar cada moeda para sobreviver. Por isso, fora aprendendo a cozinhar aos poucos. Ainda que sua habilidade culinária não fosse exemplar, ao menos era aceitável, e as irmãs jamais reclamaram do sabor; era semelhante ao de um restaurante comum. Outra razão era a higiene: se fosse só para si, não haveria problema, mas não suportava a ideia de suas irmãs alimentando-se de comida duvidosa.
— Então, irmão, compre bastante comida! Ah, e aproveite para comprar ingredientes para mapo tofu, carne de porco ao alho, caranguejo do lago Poyang, frango de Wenchang de Hainan, leitão assado, Dongpo...
— Pare, pare! Está recitando o “Elogio do Livro de Receitas Milenares”? Não vou cozinhar só para você. O que suas amigas gostam de comer? Compro mais disso. Você está listando um banquete inteiro... Incrível, minha irmã! — Diante da enxurrada de pratos nomeados por Luo Tianyi, Ye Qiu logo a interrompeu, temendo que ela acabasse recitando o cardápio completo do famoso banquete Man-Han. Não podia negar: Luo Tianyi era digna de seu título de princesa glutona.
— Ora, mas é que tudo que eu gosto, elas também gostam! — explicou-se apressada Luo Tianyi.
— Tem certeza de que não é só porque elas não querem discutir com você e acabam cedendo?
— Claro que não! Já perguntei e elas disseram: ‘Se Tianyi gosta de comer, nós também gostamos.’
Luo Tianyi fez um biquinho, manifestando sua insatisfação para Ye Qiu.
— Ah? Então devo dizer que elas são dignas de ser o seu harém? Satisfaçam todos os seus desejos... — Ye Qiu suspirou, sem palavras.
— Ei, ei! Que harém é esse? — questionou Luo Tianyi, intrigada.
— Ah, escapou... Não é nada, você ouviu errado. Hum... Vá avisar suas irmãs para arrumarem os quartos, suas amigas virão e não queremos que vejam como está tudo bagunçado! — percebendo que quase cometera uma gafe, Ye Qiu apressou-se em mudar de assunto.
— Tudo bem! Sei que está mudando de assunto, mas como sou magnânima, vou deixar passar! — Luo Tianyi bateu no peito, pequeno e reto, numa pose de superioridade, como quem diz: “Tenho um coração grande, não vou discutir com você.”
— Heh, uma garotinha dessas, querendo bancar a adulta... E vê se para de bater no peito, senão vai ficar ainda mais reto — Ye Qiu lançou um olhar para certo lugar, logo desviando, zombando dela.
— Irmão malvado, seu pervertido, não falo mais com você! — disse ela, corando, e saiu correndo do quarto.
Após a saída de Tianyi, Ye Qiu examinou o cômodo e julgou que não havia muito a arrumar por ora.
— Melhor ir logo ao mercado e começar a preparar tudo. São refeições para mais de dez pessoas, e com Luo Tianyi no meio, vai dar trabalho...
Pegou a carteira na cabeceira e saiu.
Caminhando até um supermercado próximo, o Tianxin Supermercado Popular — que, apesar de simples, supria bem as necessidades do dia a dia e, por isso, vivia movimentado —, Ye Qiu dirigiu-se à seção de carnes e verduras, pegou um carrinho e logo o encheu de ingredientes. Ao preparar-se para ir ao caixa, lembrou dos frutos; encaminhou-se à seção de frutas, mas, diante da variedade de dezenas delas, hesitou, sem saber o que escolher, quando uma voz feminina o chamou pelas costas.
— Ye Qiu, quanto tempo! Veio comprar ingredientes?
Virando-se, Ye Qiu deparou-se com uma jovem de longos cabelos dourados, bela como a vizinha idealizada de qualquer um, mas com uma altivez e nobreza que a faziam lembrar Angel Yan, da série “Super God Academy”, que assistira em sua vida anterior.
— Olá! Desculpe, mas... quem é você? — Ye Qiu sentiu que não a conhecia, mas manteve a cortesia.
— Sério? Já me esqueceu? Precisa ser tão cruel, Ye Qiu? — a garota olhou-o, ferida, como se estivesse profundamente magoada.
Num instante, Ye Qiu sentiu-se como um Chen Shimei moderno, um canalha que abandonara uma mulher. Começou a suspeitar: seria ela sua namorada neste mundo? Mas não havia qualquer lembrança dela em sua mente, ao contrário das memórias nítidas sobre suas irmãs.
— Desculpe, sofri uma lesão na cabeça há um tempo, talvez tenha esquecido algumas coisas. Poderia me dar uma pista? — Ye Qiu decidiu recorrer ao expediente universal: alegar amnésia e sondar a situação.
— O quê! Ye Qiu, você está bem? Se não consegue lembrar, não force... — ao ouvir isso, a jovem se apressou em demonstrar preocupação.
Pela reação, Ye Qiu começou a acreditar em sua hipótese e indagou:
— Cof, hum... Qual é o seu nome? Éramos muito próximos antes, não? Pode me contar um pouco?
— Éramos sim... — a jovem, radiante de felicidade, começou a narrar lembranças do passado.
Ela se chamava Shen Gong Yan, era amiga de infância de Ye Qiu, e entre eles havia laços profundos. Quando criança, sempre que alguém a ameaçava, Ye Qiu a protegia. Mais ainda, haviam prometido, em tenra idade, casar-se quando adultos. Suas famílias eram tão próximas que os pais de Ye Qiu já a consideravam nora. No entanto, seis anos antes, por razões desconhecidas, a família de Yan mudara-se, rompendo todo contato.
Enquanto a jovem falava, memórias de Yan afloraram na mente de Ye Qiu — e, nelas, Ye Qiu parecia ter ficado abatido e até ressentido com sua partida repentina, mergulhando em um ano de apatia e atribuindo a ela a culpa pelo afastamento.
— Acho que começo a me lembrar... Mas você não tinha partido? Por que voltou? — De repente, Ye Qiu assumiu um semblante frio, como se o corpo que habitava reagisse por si.