Capítulo Sete: Umaru, a Irmãzinha Preguiçosa, versus Gabriel, a Anjo Decaída
“Ye Qiu... ainda estás zangado comigo? Mas, pensando bem, é compreensível! Qualquer um ficaria aborrecido. Afinal, éramos tão próximos, amigos de infância inseparáveis, e mesmo assim parti sem uma palavra de despedida. Embora houvesse razões para que eu e minha família tivéssemos de partir assim, ainda sinto que devo pedir desculpas... Ye Qiu... eu...”
A jovem não chegou a concluir suas palavras, pois Ye Qiu a interrompeu de pronto.
“Já basta, não precisa dizer mais nada... Eu entendo que vocês tiveram motivos para ir, mas isso já não importa! Tenho assuntos a tratar, vou indo!” Concluída a frase, desistiu de comprar as frutas, empurrou o carrinho em direção ao caixa e afastou-se, decidido.
“Então ainda não me perdoas... Mas poderias ao menos permitir que eu me explique?” A jovem, num súbito ímpeto, gritou para Ye Qiu.
Os clientes ao redor, assustados com o súbito brado, voltaram-se para os dois, com olhares curiosos, como se assistissem a um espetáculo.
Ye Qiu percebeu que aquele não era lugar para longas conversas; apressou o passo, dirigiu-se ao caixa e procurou a atendente para fechar a conta.
A jovem, vendo que Ye Qiu a ignorava, sentiu os olhos marejarem de súbito, prestes a romper em pranto.
Após pagar as compras, Ye Qiu pegou as sacolas e disse, sem olhar para trás: “Agora não é um bom momento. Amanhã à tarde conversamos, meu número de telefone não mudou, continua o mesmo de antes. Tu... ainda deves lembrar, não? Liga para mim, ou eu te ligo.”
Ao ouvir isso, os olhos da jovem se arregalaram e, num instante, as lágrimas contidas desapareceram. Parecia-lhe um sonho, um acontecimento irreal; acreditara que jamais voltaria a cruzar caminhos com Ye Qiu. Recuperando-se, respondeu apressada: “Claro, ainda me lembro do teu número!” E, em voz baixa, murmurou para si: “Como poderia esquecer? Mas Ye Qiu, continuas igual, não mudaste nada.”
Ye Qiu então deixou de se preocupar com a jovem chamada Yan, pegou os ingredientes e foi apressado para casa, pois as compras estavam, maldito seja, absurdamente pesadas—haviam suprimentos para pelo menos vinte pessoas, e supunha que um terço acabaria no estômago de Luo Tianyi.
...
Ao chegar em casa, Ye Qiu depositou os mantimentos na cozinha e, vendo que todos os quartos do segundo andar permaneciam hermeticamente fechados, correu até o quarto de Luo Tianyi e perguntou: “Tianyi, não chamaste as outras? Por que parece que nem se mexeram?”
Luo Tianyi deu de ombros: “Chamei sim. Inclusive, Su Su e Rem disseram que iam arrumar as coisas. Mas quanto à Xiao Mai, Gabriel e Sagiri, não posso garantir.” Terminou a frase com um gesto resignado.
“Entendo! Vou chamá-las novamente.” Ye Qiu levou a mão à testa, exasperado.
“Vai logo, vai logo!”
...
Chegando à porta de Xiao Mai, viu que estava aberta. A menina estava diante do notebook, assistindo anime, bebendo goles de refrigerante entre mordidas de batatas fritas e pedaços de salgadinhos apimentados.
Enquanto comia as batatas, resmungava: “Que salgado.” Quando provava os salgadinhos, exclamava: “Que picante.”
“Alternando entre esses dois petiscos, o sabor nunca enjoa... É uma combinação de prazer infindável. A sensação de sede vem porque o sal das batatas e dos salgadinhos rouba a umidade da boca. É nesse momento que se deve beber o refrigerante direto da garrafa, sentindo o gás espalhar-se pela garganta ressequida...! E então, volta-se às batatas...”
Ao deparar-se com essa cena, Ye Qiu teve certeza absoluta de que aquela irmãzinha era realmente Doma Umaru—protagonista do anime de sucesso “Himouto! Umaru-chan”—de sua vida passada. Sempre invejara a maneira descontraída com que ela comia e bebia nos desenhos, afinal, personagens de anime nunca adoecem nem engordam. Contudo, agora, em carne e osso, tal hábito só prejudicaria o estômago.
Por isso, Ye Qiu apressou-se, arrancando-lhe os petiscos e o refrigerante das mãos: “Comer porcarias desse jeito vai acabar com teu estômago. E eu comprei lanches para a semana toda, como já comeste mais da metade em tão pouco tempo?” Ao ver o quarto repleto de embalagens vazias, Ye Qiu não pôde acreditar. Tinha preparado guloseimas para uma semana e, em um piscar de olhos, ela devorara quase tudo.
Ao perceber que suas comidas e o adorado refrigerante haviam sido confiscados, Xiao Mai saltou de repente, tentando parecer feroz e ameaçadora—mas, na verdade, era irresistivelmente fofa (*`へ?*). “Irmão, não tires minha comida, ou eu não vou perdoar!” ameaçou, imitando garras de gato no ar.
Ye Qiu caiu na risada: “Quero ver como vais me ameaçar. Comendo tanto lanche assim, ainda vais jantar? Logo Tianyi trará amigas, comporta-te! Imagina se alguém te vê assim, tão reclusa. Na escola, estavas sempre tão bem arrumada!”
“Não me importa, não me importa, quero meu refrigerante agora, devolve!” Xiao Mai, olhos vermelhos, exigiu.
Ye Qiu, ao ver aquilo, não pôde resistir. Desde sempre, tinha um defeito: não suportava ver as irmãs tristes.
Especialmente depois da morte dos pais naquele mundo, Ye Qiu tornara-se não apenas irmão, mas também tutor das irmãs. Contudo, por não ser um adulto de verdade, sempre acabava cedendo ao menor sinal de descontentamento delas.
“Está bem! Te devolvo o refrigerante e os lanches. Mas não comas mais agora; logo vamos jantar. Comprei muitas coisas gostosas, guarda o apetite para a refeição principal. Sem lanches por ora.”
Xiao Mai refletiu: “Ok, vou pôr o refrigerante na geladeira.”
Ye Qiu, vendo-a razoavelmente obediente, sentiu-se aliviado. Ao menos, apesar da perda dos pais, nenhuma das irmãs se tornara rebelde—apenas mais caseiras; caso contrário, ele teria sérios problemas. Ao olhar para as embalagens vazias no quarto, perguntou: “E quanto ao lixo? O irmão limpa depois ou tu mesma?” Por vezes, Xiao Mai cuidava da limpeza, especialmente quando Ye Qiu se ocupava.
“Eu limpo sozinha, pode ir fazer tuas coisas!”
Ye Qiu olhou para ela, surpreso ao vê-la tão subitamente obediente.
“Certo, então. Vou sair.”
...
Ao chegar ao quarto de Gabriel, já no corredor, foi recebido por um leve odor de lixo, levando-lhe uma veia à testa.
“Gabriel, Tianyi não pediu para arrumares o quarto? O que estás a fazer?”
Ao abrir a porta, viu Gabriel deitada no chão junto à cama, jogando no computador, rodeada de montes de lixo, onde até moscas zumbiam. Era inacreditável como ela ignorava por completo aquele cenário. Ye Qiu admirava sua indiferença.
Esperar que Gabriel limpasse o próprio quarto seria tão improvável quanto esperar o fim do mundo naquele dia...
Ye Qiu, resignado, buscou vassoura, balde de lixo e aspirador, iniciando ele mesmo a limpeza.
Levou meia hora para pôr ordem no pequeno cômodo de Gabriel—um claro retrato do caos que ali reinava.