Capítulo 5: Sentimentos de Inferioridade e Humilhação Interior
Senti-me desprezada, sem saber ao certo por quê. Embora fôssemos da mesma idade e vivêssemos sob o mesmo teto, eu era a hóspede, ele o anfitrião, e carregava sempre a impressão de estar em dívida com sua família, como se me encontrasse numa posição inferior.
Quis dizer à mamãe que não desejava morar ali, mas, apesar de abrir os lábios para falar, acabei por não pronunciar uma só palavra. Aquele era o único abrigo que nossa família possuía naquela cidade estranha, e aos catorze anos compreendi precocemente as dificuldades do mundo.
Apesar de não ser hábil no trato com as pessoas, minha alma era de extrema sensibilidade; por isso, guardava a maior parte dos meus pensamentos para mim mesma, receando até mesmo compartilhá-los com minha mãe.
Naquele tempo, eu via o desprezo que sentia e me magoava; talvez, aos olhos dos outros, aquilo nada significasse, pois o mundo era assim mesmo, como minha mãe costumava dizer.
Portanto, embora fosse precoce em muitos aspectos, eu era ainda bastante ingênua.
Não gostava de conversar, tampouco sabia como me comunicar com os outros. Por isso, durante os intervalos das aulas, raramente saía da sala. Ao meu redor, os colegas eram animados, especialmente a menina que sentava atrás de mim. Ela batia em minhas costas ao soar o sinal, e me fazia perguntas sobre minha antiga escola.
— Você conhece o Song Junxi? Ontem vi você e ele descendo juntos do carro na entrada da escola. Fiquei curiosa para saber quem você era, nunca imaginei que fosse uma aluna transferida! — Sua curiosidade era genuína, sem qualquer malícia.
Não soube como responder. Se dissesse que não o conhecia, ela certamente não acreditaria; por outro lado, ao admitir que o conhecia, como deveria explicar? Contar que minha mãe era empregada da família dele? Enquanto eu me debatia com essas dúvidas, o sinal de início da aula soou. Olhei, disfarçadamente, para Song Junxi, mas ele mantinha a expressão habitual, como se não tivesse ouvido nossa conversa.
Durante toda a aula, permaneci distraída, preocupada com como explicaria a situação à colega no próximo intervalo. Sentia-me completamente deslocada após apenas dois dias naquela escola, e não sabia como agir.
No final da aula, ela pareceu esquecer o assunto e não o mencionou novamente. Só então senti o coração aquietar-se dentro do peito. Desejei adaptar-me logo àquele novo ambiente; meus pais haviam me matriculado numa escola tão prestigiosa justamente para que eu pudesse estudar bem e ingressar numa boa universidade. Estava apenas no primeiro ano do ensino médio, mas não podia permitir-me relaxar. Após dois dias de aulas, percebi que meus antigos bons resultados eram limitados ao pequeno vilarejo de onde vim; ali, era como um sapo no fundo do poço, e havia muito a aprender.
Entrei na turma já em abril, e logo se aproximava a prova do meio do semestre. Se não tivesse um bom desempenho, certamente deixaria meus pais desapontados. Sempre fui o orgulho deles, com notas excelentes desde pequena; minha vinda para cá era justamente para me aprimorar, e se não fosse melhor do que antes, estudar na capital perderia todo o sentido.
Precisava esforçar-me ainda mais. Esperei uma semana, e Song Junxi não mencionou nada sobre material de revisão. Decidi, então, ir eu mesma à livraria no fim de semana.
Perguntei aos colegas, e me disseram que perto da Cidade Universitária havia várias livrarias, recomendando que eu procurasse lá. Passei toda a manhã percorrendo as lojas até reunir o material necessário, sentindo-me finalmente aliviada.
Voltei ao meu pequeno quarto e respirei fundo. Lavei o rosto apressadamente, nem sequer me lembrei da comida, e comecei a resolver os exercícios que havia deixado para trás.
Nem cheguei a comer o prato que minha mãe trouxe; só quando a fome me deixou tonta, percebi que já eram quase cinco horas da tarde. Não havia comido nada o dia todo. Engoli algumas colheradas apressadas, levei a tigela à cozinha, onde minha mãe preparava o jantar. Ajudei-a a lavar os legumes, descascar cebolas, a realizar pequenas tarefas de apoio.