Capítulo Quatro: Descendo do Carro (Peço que adicionem aos favoritos e recomendem)
Yang Erxiao já havia percorrido um longo caminho naquele dia. Saíra para comprar alguns livros e materiais, e ainda esperara mais de vinte minutos junto à parada de ônibus. Embora fosse jovem, sentia o cansaço a lhe invadir os membros. Some-se a isso o episódio do ataque do homem negro, o abalo psicológico do chamado “Trem dos Heróis”—não apenas o corpo, mas também o espírito de Yang Erxiao manifestavam sinais de esgotamento.
Por tudo isso, ao sentar-se, experimentou uma inesperada sensação de felicidade. Suas costas repousaram contra o encosto do banco, as mãos cruzaram-se naturalmente sobre o peito, e, sem que percebesse, Yang Erxiao exalou um suspiro profundo.
— Huuu... Inspira... Huuu...
A exaustão parecia dissipar-se pouco a pouco, esvaindo-se a cada ciclo de respiração. Lentamente, fechou os olhos, e, em poucos segundos, já se encontrava imerso no sono.
O Trem dos Heróis também silenciara, como se temesse perturbar Yang Erxiao—ou talvez, como um autômato, não ousasse tomar a iniciativa de falar sem ser provocado. Por um instante, o vagão mergulhou em quietude absoluta, interrompida apenas pelo leve e entrecortado ronco que escapava dos lábios de Yang Erxiao.
Seu cabelo negro, espesso, estava limpo e bem penteado; o rosto fino e gracioso, os lábios suavemente entreabertos; na ponta do nariz, algumas gotas de suor; as pálpebras, fechadas com naturalidade.
Dezenove anos—idade própria da juventude.
No sonho, tornara-se um grande herói, reverenciado por onde passava, admirado por todos; até mesmo o velho Yang, que sempre se orgulhara de ser chinês, via-se agora dobrado de afeto pelo rapaz...
Nesse momento, os cantos de sua boca se ergueram levemente, revelando o quão doce era aquele devaneio.
Subitamente, o ônibus estremeceu.
Yang Erxiao abriu os olhos, contrariado; ainda não terminara de saborear os quitutes preparados pelo velho Yang em sua fantasia. Involuntariamente, o mau humor do despertar se manifestou.
— Mas o que está acontecendo? Por que o ônibus está sacudindo tanto? — murmurou Yang Erxiao, erguendo as mãos do peito e espreguiçando-se com deleite.
Seu tom, porém, era ríspido. Afinal, quem gosta de ser arrancado de um sonho tão aprazível?
— Restam dois minutos. Solicita-se ao candidato a herói que conclua seus preparativos — anunciou a voz gélida do Trem dos Heróis, sem qualquer nuance de emoção.
Yang Erxiao, privado do sonho, preparava-se para resmungar, mas aquela voz metálica o trouxe de volta à dura realidade.
— Então... é mesmo verdade?! — Sua voz traiu a incredulidade.
— Solicita-se ao candidato a herói que se prepare imediatamente. Um minuto e quarenta e quatro segundos restantes — repetiu, quase mecanicamente, o Trem dos Heróis.
Era uma voz feminina, mas incapaz de inspirar simpatia. Não apenas pela frieza, mas, sobretudo, pela flagrante irracionalidade de sua existência.
Um velho ônibus, caindo aos pedaços, a proclamar-se “Trem dos Heróis”. Era como se, um dia, enquanto passeias à beira-mar, uma canoa de pescador ancorasse subitamente à tua frente e, com voz glacial, asseverasse ser um porta-aviões—e ainda te incitasse a carregar ogivas nucleares...
As situações não guardam verdadeira similitude, mas servem ao propósito de ilustrar o assombro causado pelo Trem dos Heróis em Yang Erxiao.
A sensação que lhe causava não era, de modo algum, inferior à do exemplo.
Desperto de súbito, os acontecimentos recentes começaram a repassar-se como relâmpagos em sua mente.
— Está bem. Traga-me o terno — murmurou, resignado.
Recordando-se de seu pequeno ardil, Yang Erxiao esboçou um sorriso amargo: que mais poderia fazer? Não dispunha de armas, seu corpo era são, mas estava longe de ser um mestre marcial.
Além disso, mesmo que o fosse, duvidava que pudesse resistir ao impacto de uma bala, ainda que diminuta. Só lhe restava recorrer à astúcia.
Mal terminou de falar, o terno, que flutuava silencioso na parte posterior do vagão, deslizou até ele como um espectro.
— Que coisa estranha... Será que, vestindo isto, também poderei flutuar assim? — murmurou, entre a esperança e a ironia.
Se pudesse, ao menos teria um modo de se proteger.
— Não — retrucou prontamente a voz gélida do Trem dos Heróis, esmagando sua fantasia.
— Bah! Nem queria mesmo! Só estava imaginando, nada mais! — protestou Yang Erxiao, indignado.
Pelo semblante, via-se que (realmente) não (queria) possuir tal habilidade; afinal, o jovem prezava sua dignidade: não se renderia por tão pouco.
— Solicita-se ao candidato a herói que abandone tais pensamentos irreais. Um herói deve portar-se como tal — interveio a voz do Trem dos Heróis, rasgando o último véu de pretensão do rapaz.
Felizmente, sua pele era tão espessa quanto a muralha de uma fortaleza; não corou.
E, após as palavras do Trem dos Heróis, replicou sem pressa, ajeitando as vestes:
— Como chinês, como poderia não saber sonhar? O grande sonho da China...
Antes que concluísse, o Trem dos Heróis cortou-lhe a fala:
— Atenção às suas palavras! — O tom permaneceu frio, mas desta vez carregava um matiz indefinível.
— Sim, sim, sim — apressou-se Yang Erxiao, reconhecendo o deslize.
Dali em diante, calou-se; vestiu o terno com presteza, depositou a roupa comum sobre o assento e, com certo zelo, ainda a dobrou algumas vezes.
Por fim, sob a terceira e impaciente convocação do Trem dos Heróis, encaminhou-se, contrariado, à porta.
“Crrreeeec...” A porta rangeu, como se não fosse aberta há muito tempo, exalando um odor de podridão.
— Tem certeza de que não vai me dar um lança-foguetes, uma metralhadora, ou uma Desert Eagle? — perguntou, ao contemplar a névoa opaca do exterior, tão diferente do mundo real. O nervosismo crescia, e só lhe restava o humor para disfarçá-lo—e, quem sabe, arrancar alguma concessão do Trem dos Heróis.
Afinal, estava prestes a trilhar um caminho repleto de perigos; qualquer auxílio lhe seria valioso.
“...”
O Trem dos Heróis não respondeu, como se recusasse a manter o diálogo.
Em seguida, Yang Erxiao sentiu uma força empurrá-lo pelas costas, lançando-o subitamente para fora do veículo.
Ao olhar para trás, nada mais viu além de uma vastidão indistinta.
— Mas que profundo azar! — exclamou. — À frente, um cemitério; atrás, uma charneca... Será que isso aqui não é assombrado?
Sussurrava para si mesmo, um fio gélido de temor envolvendo-lhe o corpo, como se a própria atmosfera confirmasse seus receios.
— Se lápides são sinal de assombração, então, se aqui houver um preservativo, será que encontrarei alguma bela donzela? No fim das contas, assustar-se a si mesmo é sempre o mais terrível!
Olhou ao redor; nada viu de monstruoso, de horripilante, nem criatura de três cabeças ou seis braços. Suspirou, reconhecendo a fértil imaginação.
Ergueu a mão direita, observando o relógio solar que luzia fracamente no pulso: modelo avançado, movido a energia solar, famoso por ajustar a hora conforme a posição do astro-rei.
O ponteiro marcava pouco depois das duas da tarde; na última vez em que consultara o relógio, parado junto à estação, ainda era dez da manhã.
E sentia, com convicção, que desde o instante em que entrara no ônibus, não haviam transcorrido mais do que trinta minutos.
Tal percepção podia não ser exata, mas tampouco estaria muito distante da verdade. Yang Erxiao confiava em si; e isso só o convencia ainda mais de que aquilo não era brincadeira.
Nenhuma travessura poderia dilatar o tempo daquela forma.
— Parece que me tornei, de fato, um candidato a herói. Engraçado é que não há nada de que me orgulhar nisso...
Ao lembrar-se dos relatos sobre feitos heroicos, a sensação que o invadia estava longe de ser alegre.