Capítulo Cinco: A Estranha Lápide
Fitando a vastidão infinita da estepe.
O Trem dos Heróis há muito perdera seu rastro, como se jamais houvesse existido.
Há algo de estranho nisso.
Algo que desafia a credulidade.
Yang Erxiao lentamente desviou o olhar para o cemitério; em seu íntimo, intuía que ali residia o início de tudo. Caso contrário, por que razão o Trem dos Heróis o teria deixado justamente nesse lugar?
Haveria, certamente, algum motivo oculto.
Motivo esse que, por ora, lhe escapava.
— Que mundo é este afinal? — indagou Yang Erxiao, perplexo.
Nos relatos do Livro dos Feitos Heroicos, cada mundo por onde os candidatos a herói passavam era descrito em minúcias. Contudo, nesta ocasião, o Trem dos Heróis sequer lhe oferecera uma breve apresentação, nem uma única advertência; nada. Um mistério inquietante.
— E afinal, como devo proceder para superar a provação? —
Mais intrigante ainda: o Trem dos Heróis não lhe revelara nem mesmo o modo de realizar tal prova.
A seus pés, a apenas cinco metros de distância, alinhavam-se fileiras de lápides, dispostas com rigorosa ordem.
Embora fosse apenas o início da tarde, uma tonalidade sinistra parecia se espalhar, como uma sombra sutil...
Todos temem a morte.
Yang Erxiao não era exceção; as lápides diante de si representavam, de modo inegável, a presença da morte.
— Que lugar sombrio... —
Puxou discretamente a barra das calças do terno, murmurando consigo mesmo; um frio não agressivo, mas proveniente das profundezas de sua alma.
Era como naquele instante: ainda que sentisse o frio, sua origem não era externa, mas brotava das profundezas do coração.
Enquanto se encontrava indeciso, desejando mover-se para dissipar o frio interior, figuras começaram a surgir, lentas e etéreas, do outro lado do cemitério, como espectros errantes.
— Será que vieram do Trem Maligno? — A aparição daqueles vultos fantasmais fez com que Yang Erxiao sentisse um súbito aperto no peito.
Pensando nisso, semicerrando os olhos, buscou afastar o incômodo da luz do sol para enxergar mais longe.
Queria ver que tipos de pessoas eram, para evitar, no futuro, qualquer contato.
Afinal, naquele momento, não dispunha de arma alguma; talvez numa próxima incursão pudesse adquirir armas para defesa, mas isso seria apenas numa outra vez.
Enquanto ponderava, ergueu-se na ponta dos pés, tentando enxergar à distância.
Infelizmente, mesmo com os olhos semicerrados, a luz do sol continuava a obstaculizar sua visão; tudo era difuso, apenas sabia que ali havia pessoas.
— Deveria me aproximar? — questionou-se, hesitante.
Se avançasse, talvez pudesse distinguir seus rostos, mas eles também gravariam sua fisionomia.
Se aquelas pessoas realmente haviam desembarcado do Trem Maligno, aproximar-se sozinho seria fatal.
Como narram os feitos heroicos: “Na primeira jornada pelo mundo xxx, foi morto pelas forças malignas...”
Porém, e se não fossem passageiros do Trem Maligno, mas sim agentes do enredo?
Restavam-lhe, portanto, apenas dois caminhos.
A primeira opção: aproximar-se, ser identificado como candidato a herói e ser eliminado.
A segunda: os estranhos não são forças malignas, mas sim propulsores da trama; somente ao se aproximar poderia obter o próximo passo.
Repentinamente, encontrava-se em um dilema.
— Talvez deva evitar o confronto direto? Esconder-me em algum recanto e aguardar o momento propício? — Yang Erxiao cogitou outra alternativa.
Logo, sacudiu a cabeça.
Além de tudo, às suas costas estendia-se a imensidão da estepe; escapar ou não era incerto. Supondo que conseguisse sair, surgiria outro problema...
Para onde ir após deixar o local? E se, ao abandonar o centro do enredo, fosse expulso deste mundo?
Era fundamental lembrar: este mundo era radicalmente diferente do seu mundo original.
Tudo era demasiado silencioso, não se ouvia qualquer ruído; até o vento parecia contido por alguma força invisível.
Desde o desembarque, sentira esse silêncio absoluto.
Por isso, hesitava.
Avançar ou recuar...
— Seja como for, já estou aqui; se for para morrer, que morra. Tantos candidatos a herói já pereceram, não será um a mais... —
Yang Erxiao cerrou os dentes, decidiu; naquele instante, não havia espaço para hesitação, o tempo era precioso.
— Mas como avançar? Deveria pisar sobre o descanso dos mortos? — Após tomar a decisão, olhou para a necrópole diante de si e, de súbito, estacou.
Até então, apenas observava o grupo à distância, ponderando se deveria avançar, sem notar os detalhes do caminho; ao tomar a decisão, ficou perplexo.
Lápide junto a lápide, não havia trilha alguma, nem mesmo um estreito vão; eram como enormes blocos de pedra, esculpidos com poucas linhas e cravados no solo.
— Que coisa estranha... mesmo para vizinhança, não precisariam estar tão próximos, muito menos haver um grupo inteiro sepultado junto! —
— Será um cemitério de mártires? — cogitou.
Logo, bateu levemente na testa: — Ora, qual cemitério de mártires teria esse aspecto, sem espaço sequer para virar-se... —
— Que pensamentos são esses? Este mundo não pertence ao mundo real; talvez seja uma tradição local... — Quanto mais pensava, mais plausível lhe parecia tal ideia.
Curvando-se, passou sob as lápides, observando as inscrições.
Não era um ato de desrespeito aos mortos; apenas buscava passagem.
Assim consolava a si mesmo, enquanto seus olhos se fixavam nos caracteres gravados.
Era uma escrita estranhíssima, não se assemelhava ao inglês, nem ao chinês que o velho Professor Yang lhe ensinara, tampouco a qualquer escrita antiga que conhecera.
Se tivesse de comparar, diria que lembrava o... grego antigo.
Mas não era um parecido exato; era apenas uma impressão à primeira vista, pois ao olhar atentamente, nada tinha de grego, era absolutamente diferente.
O mais estranho era que conseguia ler facilmente aquelas palavras, como se compreendesse o chinês e o inglês.
“Espírito indomável jaz aqui sepultado.”
Nove palavras curtas, mas que provocaram em Yang Erxiao um ímpeto inexplicável, uma sensação de sacrifício pela humanidade.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse expulsar tal impulso de sua mente.
Deu alguns passos, observou outra inscrição.
“O medo jaz aqui sepultado.”
Era a mesma grafia, mas a sensação era inteiramente diversa.
Ao ler a primeira frase, sentira um espírito de entrega.
Ao ler esta, um súbito temor tomou conta de seu coração.
Como ao ver, na infância, um armário entreaberto, que arrastava ao medo, à aflição.
— Que lugar sinistro... —
Ergueu a cabeça, endireitou o corpo, e não ousou olhar novamente para as lápides.
Sentia que, se continuasse a olhar, algo terrível poderia acontecer!
Era um sentimento genuíno, quase um pressentimento, uma espécie de sexto sentido.
Sempre confiara em sua intuição; por isso, deixou de observar as inscrições e pôs-se a explorar ao redor.
— Como candidato a herói, mesmo num mundo irreal, devo manter a disciplina; jamais ousaria profanar os mortos. —
Essa era sua honra.
Se não tivesse esse espírito, jamais teria sido chamado pelo Trem dos Heróis; mais provável, teria embarcado no Trem Maligno.