Capítulo Três Irmãozinho, diga-me, acha-me bela?
...
Ele tinha plena certeza: entre aqueles que haviam entrado consigo, não havia mulher alguma.
Muito menos haveria uma mulher normal capaz de rir em voz alta num ambiente tão lúgubre.
Portanto...
"Fantasma!!"
Um pensamento explosivo irrompeu-lhe no coração.
"Não olhe para trás, de jeito nenhum olhe para trás."
Xu Rui repetia incessantemente esse mantra em sua mente.
Recordava-se das novelas de xianxia que lera, onde se dizia que o corpo humano possuía três chamas: uma no topo da cabeça e duas sobre os ombros. Se, ao se deparar com entidades impuras, estas chamassem seu nome às costas, jamais se deveria olhar para trás.
Bastaria um olhar e a chama yang do corpo se extinguiria, permitindo que espectros e demônios se apoderassem de seu ser, condenando-o à morte.
— Irmãozinho, por que não olha para mim? Será que não sou bela? —
A voz sedutora aproximava-se, e ele sentia distintamente um hálito gélido, cada vez mais próximo, cada vez mais intenso.
— Irmãozinho, hihi, irmãozinho. Olha para mim, vai... —
A voz ora parecia distante, ora sussurrava ao seu ouvido, ora à esquerda, ora à direita.
Vendo que ele não se deixava abalar, aquela voz etérea surgiu então à sua frente.
A apenas um metro de Xu Rui, materializou-se, inexplicavelmente, uma mulher trajando um vestido longo vermelho-sangue, com franjas caindo à cintura e um adorno dourado nos cabelos.
A tez cadavérica, os lábios rubros como sangue, olhos negros como a noite — naquela atmosfera sinistra, tudo nela era aterradoramente macabro.
— Irmãozinho, acha-me bela? —
Mal terminou a frase, o globo ocular esquerdo despencou abruptamente da órbita.
E isso era apenas o início.
Logo em seguida, seis ou sete larvas gordas e repulsivas brotaram-lhe das faces e do queixo, contorcendo-se, seus corpos inchados rolando de um lado para o outro — a visão era tamanho horror que ele quase vomitou a comida digerida.
Um líquido amarelado e fétido escorria-lhe pelos cantos da boca; pedaços de carne podre desprendiam-se, deixando à mostra o osso branco e dentes afiados.
Tudo isso acontecia a menos de um metro de distância.
Xu Rui podia sentir, com absoluta clareza, o odor nauseabundo e insuportável.
‘Clac, clac, clac...!’
O som dos dentes batendo.
Aquela cena inaudita infundia-lhe um terror indescritível.
Mas, como há diferenças entre as pessoas...
Algumas, diante do medo extremo, sucumbem à morte; outras, ao serem levadas ao ápice do pavor, transbordam de fúria.
Xu Rui era, sem dúvida, deste último tipo, e bradou furiosamente:
— Bela, bela, bela! Quem disse que não és bela?!
E desferiu um soco brutal.
Tomado de ira, esquecera-se de que fantasmas eram entidades etéreas.
O punho atravessou o corpo da mulher espectral sem lhe causar dano algum.
— Irmãozinho, se me desejas, basta dizer. Por que se irritar assim?
Ela sorriu, lúgubre, enquanto pedaços de carne apodrecida continuavam a despencar-lhe do rosto, arremetendo-se sobre Xu Rui.
A velocidade foi tal, que antes que ele pudesse reagir, já estava diante dele, e num relâmpago, fundiu-se ao seu corpo. No momento em que pretendia devorar-lhe a alma, uma força irresistível de sucção se manifestou.
‘Ah...!’
O lamento estridente cessou subitamente.
‘Shuah!’
Uma tela luminosa surgiu diante de Xu Rui.
Letras começaram a se formar:
"Eliminou uma alma errante mediana fora de categoria, obteve dois pontos de purificação."
A súbita mudança trouxe Xu Rui de volta à razão, dissipando sua fúria.
Instintivamente, tateou o próprio corpo, especialmente a região da virilidade. Ao constatar que todos os membros estavam intactos, soltou um suspiro de alívio.
Voltou-se para a tela virtual.
"Eliminou uma alma errante mediana fora de categoria? Mas, como ela morreu?"
Rememorou todo o processo.
"Será o efeito do meu trunfo?"
Era a explicação mais plausível de que dispunha no momento.
Só não entendia por que, no início do encontro com a mulher espectro, seu trunfo não se manifestara, apenas agindo quando ela adentrou seu corpo.
"Se for assim, é um tanto problemático."
Se fosse atacado à distância, não teria chance de sobreviver.
Ainda que lhe parecesse um tanto limitado, era melhor do que nada.
Movido por tal pensamento, tornou a conferir seus atributos.
Nada mudara, exceto que agora seus pontos de purificação não eram mais zero, e atrás da indicação de aptidão surgira um sinal de adição.
Tocou-o instintivamente.
Um ponto de purificação desapareceu.
No instante seguinte, uma onda de calor, como de águas termais, irrompeu-lhe do topo da cabeça e percorreu todo o corpo.
Como se tivesse tomado um banho de sauna no mais rigoroso inverno, sentiu-se reconfortado ao extremo.
Pena que a sensação foi tão fugaz quanto veio.
Logo percebeu as mudanças em seu corpo.
A fome de três dias e o cansaço das noites mal dormidas haviam sumido.
De súbito, sentia-se mais vigoroso que nunca.
A mente límpida, a visão — já naturalmente aguçada — parecia ainda mais nítida.
Cerrando os punhos, sentiu que sua força também aumentara consideravelmente.
Após experimentar pessoalmente os benefícios dos pontos de purificação, ao ver que lhe restava mais um, seus olhos brilharam de desejo. Contudo, conteve-se.
Um único ponto fora capaz de dissipar todos os males do corpo — efeito grandioso demais para ser desperdiçado ali.
E havia outro detalhe digno de nota.
Aptidão adquirida: de 87%, passou a 88% após o uso de um ponto de purificação.
"Será que, ao ultrapassar os cem por cento, ocorre alguma transformação?"
Xu Rui encheu-se de expectativas.
‘Ah...!’
Um grito lancinante ecoou, estrondoso na noite tétrica.
Mesmo tendo matado um fantasma por acidente, estremeceu de susto.
"Alguém foi morto?"
Hesitou em aproximar-se.
Se deparasse com outro fantasma, talvez conseguisse mais um ou dois pontos de purificação — não seria pouco proveito.
Lançou um olhar para a direção de onde viera o brado.
Ervas bravas cresciam em profusão, o vento gélido assoviava, a névoa era densa.
Túmulos de alturas variadas perfilavam-se até perder de vista.
Pinheiros de formas estranhas balançavam ao vento, seus galhos projetando sombras dançantes; na escuridão infinita daquele ambiente lúgubre, pareciam esconder miríades de fantasmas.
‘Paf!’ — deu-se um tapa vigoroso no rosto.
E saiu correndo para frente.
"Tsc, mal obtive um benefício e já quero bancar o valente? Estou pedindo para morrer?"
No fim das contas, era apenas um homem comum, criado em tempos de paz; a ajuda do trunfo talvez o nivelasse aos gênios, mas, em poucos dias, nem sequer superara o pavor de fantasmas e já se via massacrando todos pela frente?
Ou era delírio, ou desejo de morte.
Perdeu-se correndo às cegas pelo cemitério; embora a névoa densa impedisse que visse alguém a mais de cinco metros, cruzou com várias pessoas — e com vários cadáveres também.
Xu Rui não se meteu onde não foi chamado.
Num ambiente desses, até o mais virtuoso tende ao mal, e o perverso torna-se ainda mais cruel.
Cautela é o segredo da sobrevivência.
Mas, vagando tanto, percebeu um detalhe:
Quanto mais se afastava para fora, mais espessa era a névoa, tornando impossível sair dali.
Por outro lado, avançando para o interior, não se perdia.
Transpôs moitas de espinhos; os pinheiros, enrijecidos pelo tempo, tornavam-se cada vez mais altos e espaçados.
Os túmulos, desgastados pelo vento e pela chuva, deixavam apenas os montes maiores.
Após caminhar uns dez minutos, vislumbrou um antigo pinheiro de sete ou oito metros de altura, cuja copa parecia tocar as nuvens.
Ao seu lado, erguia-se um túmulo colossal, de mais de cinco metros de diâmetro e dois de altura.
Pela ação do tempo, o túmulo, nunca restaurado, fora devorado pelas ervas daninhas.
Somente a lápide de pedra, esculpida em granito, permanecia de pé, imponente.