Capítulo Três: Encontro com o Destino
A vida na aldeia era extraordinariamente tranquila e serena, propícia para a recuperação de feridas. Naquela tarde, pouco após o almoço, Wei Zixin e Xiao Yao conversavam quando a velha senhora entrou sorridente, trazendo uma bandeja de frutas nas mãos.
— Hehe, minhas queridas, aqui nas montanhas não tenho muito com que recebê-las. Estes frutos foram colhidos por meu filho mais novo esta manhã. Experimentem, por favor — disse ela, com um sorriso um tanto solícito estampado no rosto.
— Muito obrigada, vovó — respondeu Wei Zixin, percebendo que a anciã parecia ter algo a dizer. Prosseguiu: — Por favor, sente-se. Tem algo que deseja nos contar?
— Hehe, hehe — a velha, como se tivesse sido desvendada, abandonou as cortesias e sentou-se à beira da cama. — Ora, eu ouvi vocês dizendo que vão ao longe buscar parentes, mas nestas montanhas altas e águas distantes, duas moças sozinhas... Como poderiam encontrar o caminho? Não seria melhor... hehe...
Xiao Yao, impaciente, perguntou: — Melhor o quê?
A velha bateu na coxa e, decidida, foi direta: — Melhor que fiquem nesta aldeia, estabeleçam-se aqui. Fiquem tranquilas, enquanto tivermos o que comer, não faltarão à vocês...
— Vovó, acaso tem outro propósito? Não precisa de cerimônias, pode dizer francamente — interrompeu Wei Zixin.
— Ai! — a velha, novamente desnudada em seus pensamentos, confessou: — Direi logo. Meu filho mais novo, tem apenas vinte anos, ainda não se casou... — Ao dizer isto, chamou para fora: — Erniu, venha logo!
Um rapaz de semblante ingênuo e tímido entrou, coçando a cabeça e avançando devagar.
— Já perguntei a ele. É muito calado, mas depois de insistir, confessou que gosta da Xiao Yao, quer que ela fique — disse a velha, — e prometeu que tudo na casa será como ela quiser.
— Puf! — Xiao Yao, ao beber água, quase a cuspiu. Wei Zixin cobriu a boca, sorrindo radiante. Li Erniu, ao lado, ficou ainda mais constrangido, o rosto rubro.
— Não é que você não seja boa... — a velha tomou a mão de Wei Zixin. — Vê, Xiao Yao é forte, pode viver nesta aldeia pobre. Embora se tratem como irmãs, se não me engano, você tem modos de dama de família abastada, é quem toma as decisões.
— Vovó, peço-lhe... um dia, prometo arranjar-lhe uma boa família na cidade — suplicou a velha, com olhos cheios de esperança para Wei Zixin.
A conversa já tomava rumos extravagantes, pensou Wei Zixin, apressando-se a interromper: — Não posso decidir sobre isso. É questão de Xiao Yao; só ela pode responder — disse, sorrindo para a amiga.
— Não aceito! Quero acompanhar você — respondeu Xiao Yao, recusando sem rodeios.
O rapaz, ouvindo isso, ficou vermelho e saiu cabisbaixo.
— Meu filho não teve essa sorte, ai... — lamentou a velha.
— Vovó, desculpe-me. Minha irmã é direta, não quis magoar vocês. Mas assuntos de casamento não podem ser forçados. — Wei Zixin recusou com elegância.
— Sim, sim... — murmurou a velha, envergonhada — fui imprudente... Não lhes perturbarei mais. — Retirou-se apressada, o rosto rubro.
Apesar da recusa, a família do chefe da aldeia continuou a cuidar delas com dedicação. Essa excessiva solicitude, porém, deixava Wei Zixin e Xiao Yao inquietas.
Naquela noite, Wei Zixin decidiu com Xiao Yao: era hora de deixar a casa dos Li e partir em busca de Zi Jia. Despediram-se da família.
Na manhã seguinte, ao prepararem a partida, Li Erniu apareceu à porta com uma carroça.
— Deixe que ele as conduza um trecho — disse o velho chefe da aldeia, sorrindo.
Wei Zixin e Xiao Yao sentiram-se tocadas pela bondade daquela família. Por um instante, Xiao Yao olhou atentamente para Li Erniu, percebendo que seu semblante era, afinal, agradável. Contudo, sua missão era proteger a senhorita; não poderia se permitir distrações.
Wei Zixin não recusou; era melhor ter meios mais convenientes de viagem.
A carroça avançou por quase meio dia, levando-os até a cidade próxima. O mercado fervilhava de gente, bem mais animado que a aldeia.
Li Erniu precisava retornar. Wei Zixin pediu a Xiao Yao que lhe entregasse algumas barras de prata, comprando a carroça. Era dinheiro suficiente para adquirir uma melhor.
Li Erniu ficou ali, parado atrás da carroça, enquanto esta se afastava cada vez mais, sem conseguir partir.
Wei Zixin, dentro do veículo, comentou com um sorriso a Xiao Yao, que guiava: — Por que não fica? Vejo que ele é sincero contigo.
— Senhorita, está brincando comigo... — respondeu Xiao Yao.
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O almoço foi numa pequena taberna da cidade.
Para evitar multidões, Wei Zixin e Xiao Yao chegaram mais tarde. No salão, além delas, havia apenas uma outra mesa.
Sentaram-se num canto, ouvindo a conversa da outra mesa, pois o ambiente estava silencioso.
— Ei, ouviu? Após a morte do antigo imperador, a luta interna na corte matou muitos, não foi? — sussurrou um deles.
— Sim, dizem que na cidade imperial morreram mais de dez mil, rios de sangue. O Príncipe de Jin matou o antigo herdeiro e proclamou-se imperador. O Príncipe de Qin não aceitou, declarou guerra, ambos saíram feridos — o massacre entre irmãos aterrorizava.
— E agora? Quem ocupa o trono? — perguntou o outro.
— É o Príncipe Ming. Dizem que não era favorecido, nem tinha poder. Antes da calamidade, fora envenenado, afastado primeiro. Mas curou-se. Ao retornar à capital, todos os príncipes aptos ao trono estavam mortos ou gravemente feridos, e ele foi aclamado pelos ministros. A cerimônia de coroação será no início do próximo mês.
...
Ao ouvirem tal notícia, Wei Zixin e Xiao Yao sentiram um estremecimento no coração. O Príncipe Ming, devia ser aquele que tratou da doença em Yunlong. Não esperavam que tão cedo se tornasse imperador; uma inquietação inexplicável tomou-lhes o espírito.
O almoço foi leve, e logo partiram.
Caminharam por muitos dias, sempre rumo ao oeste, em direção a Shu. Paravam nos pontos turísticos famosos, pois a carta de Zi Jia dizia apenas que viajaria. Wei Zixin desenhou o retrato da irmã, perguntando aos barqueiros, carregadores de montanha, guias, mas nunca encontrou notícia.
No vasto mar de gente, quão difícil era buscar alguém.
Enquanto pensava em como encontrar a irmã mais rápido, Xiao Yao murmurou: — Senhorita, algo está errado aqui, não saia por nada.
A carroça avançava por um vale sombrio, ladeado por montanhas íngremes e florestas densas. O silêncio era inquietante.
Sob uma árvore no alto do precipício, havia um grupo de bandidos, cerca de trinta. O chefe, mascarado, conversava em voz baixa com um conselheiro igualmente mascarado: — Não era para vir um grupo oficial agora? Só veio uma carroça...
— Também estranho, já investigamos. Será que estão explorando o caminho? — sugeriu o conselheiro.
— Esperemos mais um pouco — respondeu o chefe, paciente.
Quando Xiao Yao, guiando a carroça, acreditava que escapariam do vale, surgiu um grupo de veículos e cavalos atrás deles. O som dos cascos fez seus corações dispararem.
Ao soar um apito, dezenas de bandidos mascarados desceram das encostas, cercando todos, inclusive a carroça de Wei Zixin e Xiao Yao.
— Quem são vocês? Sou o novo magistrado deste condado. O que pretendem? — bradou um ancião, de pé na carroça, com dignidade.
— Irmãos, ao ataque! — gritou o chefe mascarado. Os bandidos ignoraram o magistrado, iniciando um massacre sanguinolento.
— Senhorita, não saia! — apressou-se Xiao Yao, entrando na luta.
Wei Zixin, prendendo o fôlego, sacou a adaga e permaneceu imóvel no centro da carroça.
Os bandidos eram mais numerosos, tornando a batalha especialmente cruel. Xiao Yao, ágil, movia-se entre os inimigos, derrubando vários. O chefe percebeu que ela era habilidosa, mas mantinha-se ao redor da carroça.
— Deve haver alguém importante ali dentro — pensou ele. Num salto, aproximou-se, cravou a lâmina na carroça e feriu o cavalo, que, enlouquecido, disparou.
A carroça, desgovernada, correu velozmente.
— Senhorita! — gritou Xiao Yao, ignorando o perigo e tentando perseguir. Não percebeu o golpe no ombro, que logo se tingiu de sangue.
— Haha, chefe é brilhante! — adulou o conselheiro.
— Chefe, problema! Uma tropa de soldados se aproxima — avisou um bandido.
— Culpa daquela garota que nos atrasou! — o chefe lançou um olhar sinistro a Xiao Yao, ferida, mas lutando.
— Chefe, é melhor partir... — murmurou o conselheiro.
— Retirada! — rosnou o chefe, desejoso de uma vitória rápida.
— Sim! — todos os ladrões fugiram rapidamente.
A algumas centenas de metros fora do vale, encontraram Wei Zixin: o cavalo fugira, a carroça batera numa árvore, quase destruída. Wei Zixin estava inconsciente, metade do corpo fora da carroça, vestida de sangue, que ainda escorria.
— Salvem minha senhorita, por favor, imploro, salvem minha senhorita! — Xiao Yao, chorando com voz trêmula, ajoelhou-se diante do magistrado, suplicando sem cessar...