Capítulo Cinco: Retribuição
畏 Zixin sentia-se envolta por uma névoa de torpor, a testa latejando com uma dor lancinante, como se tivesse sido golpeada impiedosamente por um bastão. Lentamente, abriu os olhos.
— Senhorita, senhorita, finalmente despertou! — exclamou Xiaoyao, chorando de alegria ao seu lado.
— Xiaoyao, não chores — murmurou Zixin, estendendo a mão para enxugar as lágrimas da criada.
— Hum — Xiaoyao acenou obedientemente, refreando o pranto.
— Onde estamos agora? Quanto tempo permaneci inconsciente? — Zixin buscava em vão recompor a memória: recordava-se apenas do ataque sofrido num vale de Shu, cercadas por salteadores; ela, ferida por uma lâmina dentro da carruagem, que, desgovernada, chocou-se contra algo. A partir desse momento, tudo mergulhara no esquecimento.
— Estamos nos fundos da residência oficial do magistrado Lan. O senhor Lan foi quem, junto conosco, caiu na emboscada dos salteadores. Ele ordenou que chamassem um médico para salvá-la e nos acolheu aqui. Senhorita, estiveste desacordada por três meses inteiros... — Xiaoyao relatou, em tom pausado, tudo quanto se passara nesses meses.
Zixin, de natureza já frágil, trazia duas feridas do dia do ataque: uma de lâmina, outra resultante do golpe na testa. Ferimentos assim conjugados tornavam o tratamento árduo. O magistrado Lan buscou todos os médicos das redondezas e, por fim, arrancou-a das garras da morte.
Segundo Xiaoyao, devia ao magistrado Lan a própria vida. Zixin, desejando levantar-se para agradecer-lhe, ouviu passos aproximando-se do lado de fora.
— Senhorita Xiaoyao, ouvi dizer que a senhorita Wei despertou. Vim com meu pai visitá-la — anunciou uma voz feminina, suave como algodão, por detrás do biombo.
Zixin ergueu o olhar e viu dois ingressarem no aposento. O rigor do inverno já se fazia sentir; brasas crepitavam no braseiro, aquecendo o ambiente. Ambos retiraram as capas salpicadas de neve. O ancião sorria com benevolência; a jovem, trajando uma túnica cor-de-rosa pálido, sorria gentilmente. Era uma donzela encantadora, cuja beleza poderia ser descrita como um sorriso que eclipsava cidades.
O velho só podia ser o magistrado Lan; a jovem, certamente, sua filha, a senhorita Lan.
— Wei Zixin saúda o senhor Lan e sua filha. Sou eternamente grata por terem salvo minha vida — disse ela, ajoelhando-se em profunda reverência.
— Levante-se, não precisa de tantas formalidades — apressou-se o magistrado Lan em ajudá-la a erguer-se.
— Irmã Wei, não seja tão cerimoniosa conosco — juntou-se a senhorita Lan, aproximando-se com olhos brilhantes, fitando-a com admiração. — Irmã Wei, és, sem dúvida, a mulher mais bela que já vi!
O disfarce de Zixin havia desaparecido, revelando-lhe o verdadeiro rosto: sobrancelhas arqueadas em forma de folhas de salgueiro, não tingidas e ainda assim escuras; olhos de ameixa, límpidos e cambiantes; nariz delicado, lábios rubros e dentes alvos, todos traços harmoniosamente dispostos num rosto oval de pele alabastrina e macia, resplandecente como jade sob a luz.
Zixin tocou o rosto, percebendo que a máscara de disfarce se fora sem que notasse. Sorriu, levemente constrangida, e explicou:
— Xiaoyao e eu, para facilitar nossa jornada solitária, recorremos ao disfarce. Fugimos de casa à procura de minha irmã mais nova.
— Com tal beleza, de fato, não convém expor-se em público — suspirou Lan Xiner, a jovem, admirada. — Tua aparência transcende a mera lisonja: um sorriso capaz de derrubar cidades.
— Senhora Lan, é exagero de sua parte — respondeu Zixin, inclinando-se ligeiramente.
— Não me chames de senhora Lan, irmã. Meu nome é Lan Xiner. Em meu nome também há o caractere “Xin”. Não é curioso? — Lan Xiner, espontaneamente, segurou a manga de Zixin.
Zixin acenou com um sorriso. Coisas belas sempre atraem, e pessoas belas ainda mais. Lan Xiner sentiu-se imediatamente próxima de Zixin e não cessava de fazer-lhe perguntas. O magistrado Lan, por fim, retirou-se, deixando a filha conversar longamente com a recém-desperta.
Após a partida de Xiner, Zixin refletiu e retirou de seus pertences o talismã do Bagua Linglongfu, confiando-o a Xiaoyao, instruindo-a a ir à maior hospedaria da cidade e mostrar o símbolo, para estabelecer contato com Yunlongcheng.
— Senhorita, como sabe que a maior hospedaria é propriedade da organização da cidade? — perguntou Xiaoyao, intrigada.
— Estudei o mapa dos negócios da Xiangyun She; quase todas as maiores lojas das cidades do país pertencem a ela. Tente e verás — respondeu Zixin. Xiangyun She era a organização comercial de Yunlongcheng além dos muros da cidade.
— Senhorita, finalmente decidiu retornar à cidade? Ah, como anseio por isso!
— Por ora, apenas estabeleça o contato. Ainda não é hora de regressar. Restam-nos dois assuntos a resolver.
— Que assuntos são esses? — perguntou Xiaoyao, sem entender.
— Devemos retribuir o salvamento do magistrado Lan. E, enquanto os salteadores não forem extirpados, não terei paz. Se ousaram atacar até os carros oficiais, que dizer dos cidadãos comuns? — Zixin franziu o cenho.
— Sim, senhorita.
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— Não entrarei no palácio! — Ao aproximar-se dos aposentos de Lan Xiner, Zixin ouviu sua voz, habitualmente meiga, soar com inusitada firmeza, quase entrecortada pelo choro.
— Xiner, não sejas insensata! — a voz do magistrado Lan soava irada.
— Pai, sabeis que meu coração já pertence a outrem. Não quero partir, não desejo entrar no palácio — e a súplica se dissolveu em soluços.
— Mas, a ordem imperial já foi dada; teu nome consta entre as selecionadas. Nada posso fazer — suspirou o magistrado, resignado.
Zixin, ao ouvir tal, compreendeu a situação. Xiner confiara-lhe antes seu segredo: conhecera o segundo filho da família Wang em circunstância fortuita, e ambos se apaixonaram à primeira vista, encontrando-se em segredo algumas vezes. O magistrado Lan, sabendo do caso, não se opusera, pois havia averiguado o caráter do rapaz e nada encontrara de reprovável.
Mas uma seleção imperial arruinara o destino dos amantes. Como poderia Xiner abdicar de seu amado e resignar-se a entrar no palácio?
O coração de Zixin também se apertou. Preparava-se para sair quando ouviu:
— Pai, não podeis encontrar alguém para entrar no palácio em meu lugar? — a esperança tingia a voz de Xiner.
— O império é vasto, mas quem poderia substituir-te? Teria de ser alguém de idade, porte e feições semelhantes...
— Permita-me entrar no palácio no lugar de Lan Xiner — disse Zixin, adentrando o aposento. — Sei disfarçar-me.
— Irmã Zixin? — Xiner fitou-a, surpresa.
— É crime grave enganar o imperador. Se descobrirem, todos estaremos condenados — advertiu o magistrado Lan.
— Rogo que confie em mim, senhor. Pensei em tudo. Basta portar-me discretamente e, após alguns anos, poderei deixar o palácio sem levantar suspeitas — Zixin sorriu, confiante.
— Mas...
— Se não fosse por vossa intervenção, há muito teria perecido. Agora, ao ver Xiner em apuros, tenho enfim a chance de retribuir o favor. Peço que me permita.
...
Naquela noite, Xiaoyao retornou da hospedaria com notícias de Yunlongcheng.
— Segunda senhorita, há notícias. Mandaram dizer que está além-mar, em perfeita segurança.
— Aquela menina... Dois anos sem dar notícias, só agora resolve escrever! — Zixin, rindo entre lágrimas, não conseguiu conter a emoção. Após tudo o que a irmã passara, teria, enfim, encontrado paz?
— Sobre aqueles salteadores, a cidade já destacou homens para investigá-los. Em breve teremos novidades — informou Xiaoyao, irritada ao lembrar do líder dos malfeitores.
— Senhorita, podemos voltar à cidade? Agora que há notícias da segunda senhorita, não precisamos mais vagar por montanhas e vales. Sinto tanta falta da vida na cidade, do sabor do hot pot... mal posso esperar!
— Xiaoyao, já combinei com o magistrado Lan e a senhorita Lan: tomarei o lugar de Xiner na seleção imperial.
— O quê?! — Xiaoyao quase caiu da cadeira de espanto.
— Não posso ignorar o favor que nos foi concedido. Xiner não deseja entrar no palácio, pois o coração já tem dono. Não posso cruzar os braços.
— Mas, senhorita, com sua beleza... Entrando no palácio, conseguiria sair em segurança? — Xiaoyao recordou-se do atual imperador, famoso por sua predileção por rostos belos.
— Fique tranquila, Xiaoyao. Sei como sair ilesa; posso disfarçar-me.
— E eu, poderei acompanhá-la?... — Mas como não estava na lista de selecionadas, não poderia acompanhá-la como criada. Sabendo disso, Xiaoyao baixou a cabeça, desolada.
— Há ainda uma última tarefa importante. Deixarei o Bagua Linglongfu contigo. Deves ajudar-me a erradicar aqueles salteadores.
— Sim, senhorita!
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Flocos de neve caíam docemente do céu, recobrindo a terra com um manto níveo.
Diante da residência oficial, carruagens reluziam sob a neve. Lan Xiner, amparada por Xiaoyao, atravessou o portão e subiu na carruagem.
Xiaoyao, contemplando a carruagem que se afastava, deixou escorrer uma lágrima silenciosa: após mais de uma década de convivência, separava-se de sua senhora, que, sozinha, trilhava agora o caminho até o palácio imperial.
Após quinzena de viagem, chegaram enfim à capital.
Zixin, disfarçada de Lan Xiner, ergueu discretamente a cortina da carruagem, observando o bulício das ruas, onde multidões se acotovelavam e estabelecimentos se enfileiravam, formando um quadro vibrante de vida e movimento.
Às portas do palácio, o eunuco responsável pela conferência das candidatas fitou a pintura, depois Zixin, notando que, embora parecesse a jovem do retrato, havia algo de indefinível: no retrato, a moça exibia beleza e vivacidade; diante dele, exceto pelos olhos límpidos, o restante do rosto carecia de delicadeza — o nariz parecia mais proeminente, as sobrancelhas mais espessas. Ainda assim, a semelhança era notável.
— Hum-hum — pigarreou o eunuco. — És Lan Xiner, filha de Lan Xiali?
— Sim, sou eu mesma — respondeu Zixin com voz melodiosa, que estremeceu o eunuco.
Ao lado, um criado discretamente apertou a mão do oficial, passando-lhe um lingote de prata.
— Muito bem — disse o eunuco, sem alterar a expressão, recolhendo o suborno. — Sigam-me.
Quando o pesado portão do palácio se fechou, Zixin, diante do mar de telhados e salões, exalou um suspiro silencioso. Ela, de fato, havia ingressado no palácio imperial.