Capítulo Dois: É Imperativo Manter-se Distante das Intrigas Domésticas
— Isto é algo de suma importância para este príncipe; somente eu sei onde está guardado. Você virá comigo — declarou Gu Mu, sentindo a cabeça latejar. Jamais lera romances femininos e, por isso, não conseguia captar-lhes a lógica.
Afinal, não deveria ter sido um enredo em que a protagonista atravessa mundos para tornar-se uma inútil apenas na aparência, mas que, munida de um sistema celestial, abate deuses e budas em seu caminho, até chegar ao ápice, reinando soberana?
Por que, então, via-se preso a dilemas tão triviais, como despachar uma mera criada? Seria este, porventura, o tão propalado... drama doméstico dos romances femininos?
Gu Mu percebeu que, assim, não poderia continuar; precisava, a todo custo, conduzir a narrativa para o viés masculino.
Sim... No instante seguinte, as palavras da criada confirmaram suas suspeitas: era inegavelmente um drama doméstico.
A criada se aproximou, inclinou-se até seu ouvido e sussurrou:
— Acaso... o senhor esqueceu de levar aquele objeto...?
Logo, o rosto da criada tingiu-se de rubor, subindo-lhe até o pescoço:
— Digo, ouvi dizer que, para os homens, a primeira vez nunca é satisfatória, por isso... mesmo que não se destaque, creio que a jovem princesa não se importará tanto.
Aquele... objeto?
Estaria ela se referindo ao que estou pensando...?
Num lampejo, Gu Mu sentiu-se ultrajado por uma insinuação velada.
Contudo, Gu Mu era um homem determinado a transformar um romance feminino numa saga masculina.
Ele era um príncipe! O futuro regente, destinado a estar acima de todos!
Embora, desde cedo, tivesse sido educado nos preceitos modernos de igualdade, agora, investido de tão ilustre identidade, não demonstrar autoridade seria um desperdício do título.
Seu semblante endureceu de súbito:
— Você: ou vem, ou morre.
Ameaçar vidas por meras trivialidades — eis a marca de um vilão exemplar.
Ainda que Gu Mu baixasse a voz, nela se percebia a cólera contida.
Afinal, que homem aceitaria de bom grado tamanha insinuação?
Inesperadamente, a criada, destemida, cedeu num instante, mas não se conteve de proferir palavras ainda mais chocantes:
Ela se ajoelhou, e, como se temesse não ser ouvida, bradou:
— Majestade! Não perca o juízo! Eu o acompanharei, só não faça nenhuma loucura!
... Perder o juízo?
... O personagem original sofria desse mal?
... Espere. Gu Mu, ainda que jamais tivesse lido um romance feminino, já ouvira falar dos chamados "antagonistas belos, poderosos e trágicos": personagens cruéis e impiedosos, que, com um rosto deslumbrante e um passado de desventura, conquistam legiões de admiradoras.
... Será que o original também carregava uma história de sofrimento?
Afinal, se há indícios de insanidade, não faria sentido faltar uma trajetória marcada por tragédias.
Sem ainda ter aberto a “caixa de memórias da vida passada do personagem original”, Gu Mu sentiu uma profunda dor de cabeça.
O brado da criada destemida logo atraiu outras. Uma, duas — logo eram muitas, apressando-se a cercar Gu Mu.
— Majestade, esta noite é a de vossas núpcias! Tantos dignitários presentes... Como príncipe, não pode tornar-se motivo de escárnio!
— Majestade! Recolha-se a seus aposentos para se acalmar. Bastará retornar ao quarto e, em breve, tudo estará bem!
— Exato, Majestade. Permita-nos escoltá-lo, para que os convidados não presenciem nada indesejável.
Agora, todas se apressavam em reconduzi-lo ao seu quarto.
Gu Mu, exausto, já não tinha ânimo para protestar; permitiu-se ser conduzido pelas criadas, que o escoltaram até o aposento e fecharam a porta, deixando-o, enfim, a sós e aliviado.
As criadas não ousaram entrar, mas algumas montaram guarda do lado de fora, prontas a servi-lo.
Isso, porém, era irrelevante: desde que estivesse sozinho, Gu Mu poderia, finalmente, absorver as memórias da vida passada do personagem original.
As lembranças emergiram numa torrente, como se fosse um espectador assistindo à vida pregressa de seu predecessor.
Descobriu, então, que não apenas traíra Shen Ling, como exterminara sua família, nove gerações, e tornara o jovem imperador um fantoche, levando-o à morte súbita e assumindo o trono.
Depois, mergulhara na devassidão, arruinando o país, até ser enforcado por generais inimigos nas portas da cidade.
Jamais vira o rosto verdadeiro de Shen Ling, nem mesmo após o casamento, pois a jovem sempre usava véu — diziam que, sob ele, o rosto era coberto de manchas, de aparência aterradora.
Na noite das bodas, ainda não era regente, mas apenas um príncipe, o sétimo filho do imperador. Sua mãe, antiga imperatriz, perdera influência após a ascensão de uma nova concubina, caindo em desgraça.
A morte de sua mãe envolvia segredos entre a corte e o harém; seu pai, o imperador, não era completamente inocente. Após ser preterido, testemunhara o quão gélido e interesseiro era o coração humano, e sua índole se transformara.
A suposta loucura não passava de um artifício: quando desejava praticar o mal, atribuía a culpa a crises de humor. Diante dos outros, disfarçava-se bem, reunindo aliados para alçar-se ao trono, e usava a insanidade como desculpa.
Havia, nas lembranças, uma linha do tempo crucial:
Três dias depois, o imperador sucumbiria.
Ou seja, dali a três dias, tornar-se-ia o regente supremo, senhor de todos, manipulando o jovem imperador como um boneco.
Gu Mu logo percebeu que havia algo estranho na morte do imperador.
Embora o personagem original conspirasse há anos, acumulando poder, não chegara a deflagrar o golpe quando o imperador, subitamente, faleceu; ao mesmo tempo, um decreto nomeou o príncipe herdeiro — um menino de menos de doze anos — como novo imperador.
A ascensão do personagem original a regente, monopolizando a corte e reduzindo o novo imperador a um fantoche...
Não restava dúvida: era o maior antagonista dos romances femininos, e a palavra poder, no caso, não era mero exagero.
Como maior adversário da protagonista em sua jornada de vingança e ascensão, seu patamar precisava ser elevado.
Gu Mu soltou um suspiro, deitou-se na cama.
Estava cansado.
Fora despertado pelo sistema e desejava retomar o sono.
No telhado do quarto de Gu Mu, Shen Ling recompôs discretamente a telha que afastara e sentou-se a contemplar a lua.
Por que ele simplesmente recolhera-se para dormir, sem trair?
Seria mesmo... por temer assustá-la, devido à suposta insanidade?
Shen Ling sacudiu a cabeça, lembrando-se de que estava ali para vingar-se.
A morte dos seus, sua própria morte, a traição do marido — tudo ainda tão vívido.
Ergueu o rosto, os olhos úmidos; havia tanto tempo que não contemplava o céu daquela maneira.
— A lua está tão cheia esta noite... — murmurou, sem saber para quem.
Faltavam três dias para a morte do imperador, ao amanhecer.
O sistema: “Parabéns por completar a missão. Ganhou um ‘guarda-mortal oculto, impossível de ser encontrado’.”
Gu Mu, ainda sonolento, abriu os olhos e deparou-se com um homem, todo vestido de negro, postado ao lado da cama.
Era, na verdade, um belo rapaz — devia ser o assassino secreto que acabara de ganhar.
Nesse instante, ouviu-se uma batida à porta: era a criada destemida da noite anterior.
— Majestade! Majestade! É hora de levantar, preparei os itens para vossa higiene.
Embora o personagem original fosse o sétimo príncipe, era ambicioso e extremamente diligente — com receio de perder a hora, ordenara à criada que o despertasse, sem falta, todas as manhãs.
Gu Mu e o guarda-mortal trocaram olhares incertos.
Se alguém os encontrasse ali, após a noite de núpcias, não na companhia da esposa, mas com um homem misterioso...
Bem, talvez fosse o tipo de situação bem-vinda nos romances femininos.
Mas Gu Mu, determinado a viver a história como um protagonista masculino, jamais permitiria tal absurdo.
— Você, pode se esconder em algum lugar? — perguntou Gu Mu, incerto.
O personagem original era adepto do minimalismo: apesar do status de príncipe, o quarto era vasto, mas quase desprovido de mobília. Gu Mu não fazia ideia de onde poderia ocultar um homem adulto, sem que as criadas, entrando e saindo, o descobrissem.