Capítulo Quatro: Acima de Todos!
Que os céus sejam testemunhas: Gu Mu apenas desejava contemplar a beleza.
No entanto, as coisas pareciam tomar um rumo inesperado.
Meia hora se passou...
O desenrolar dos acontecimentos era mais ou menos assim: Shen Ling era alérgica à raiz de samambaia, e a pequena chá-verde Ma Shishi, propositalmente, moera a raiz em pó e a adicionara ao chá de Shen Ling.
Por isso, o rosto de Shen Ling, ao longo dos anos, vivia coberto por pontos vermelhos de alergia; por confiar outrora em Ma Shishi, julgava tratar-se de uma mera questão dermatológica. Regressa ao passado, Shen Ling trocou o chá com antecedência.
E então, diante do príncipe — isto é, Gu Mu.
Desmascarou Ma Shishi em pleno ato.
— Se o príncipe não amasse sua princesa, ela nada seria.
— E vossa senhorita não é igual? Fazendo de tudo para seduzir o príncipe, apenas para galgar posição social?
...
Gu Mu jamais esperara que, após a encenação das protagonistas, seguisse-se uma acalorada disputa verbal entre as criadas de cada lado.
Ele, de fato, só queria contemplar a beleza.
Por que,
haveria de ser,
tão complicado assim?
Gu Mu afastou-se, deixando para trás a algazarra, retornando a seus aposentos, onde se deixou tombar sobre o leito...
Exaurido.
Seriam assim as novelas femininas?
Acaso, mesmo que unifique o império e conquiste um harém com três mil belezas, restar-lhe-á o papel de mero figurante nas intrigas palacianas?
Gu Mu sentia que, enquanto não logre êxito em sua grande empreitada de mudança de gênero literário, não poderia repousar em sua luta.
Os “mortos-vivos” que, “mesmo ocultos, estão sempre à mostra”, infiltraram-se nas residências dos principais oficiais ligados à imperatriz, recolhendo informações e, por pombos-correio, transmitiram a Gu Mu não poucos informes.
Mas nenhum deles trazia a pista central sobre o golpe palaciano.
Até que, na tarde do dia da morte do imperador, Gu Mu finalmente recebeu uma informação crucial.
Afinal, a imperatriz vinha envenenando o imperador há anos. Era um veneno de ação lenta, que primeiramente minava sua resistência física — até mesmo o médico imperial não percebera nada.
Após tantos anos, o veneno já lhe impregnara os órgãos, sem cura possível.
O homem, esse, já não tinha salvação.
Contudo, segundo a pista, o veneno no corpo do imperador não seria suficiente para matá-lo naquela noite.
Provavelmente, a imperatriz preparara tudo para acelerar o desfecho naquela mesma noite.
Era... absurdo...
Ser morto pela própria esposa...
Gu Mu sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, mesmo em meio a uma novela feminina sem cheiro de pólvora.
Ah, sim, ele também possuía uma esposa que desejava vê-lo mergulhado na dor mais intensa.
“Parece que ninguém está em melhor situação que outrem”, ponderou Gu Mu. Sendo príncipe e, após anos de meticuloso planejamento, tendo acumulado considerável poder, logo ordenou a alguns homens de confiança que avisassem as forças aliadas a dirigirem-se ao palácio imperial.
Ele próprio partiu a galope para o palácio.
Afinal, tratava-se de um ato de justiça — o primeiro passo de sua grande empreitada de troca de gênero literário.
O primeiro passo, porém, foi barrado às portas do palácio, pelos homens da imperatriz.
Gu Mu, montado em seu cavalo, contava ao menos com sua habilidade marcial.
Empunhando uma longa lança, era invencível: deuses ou budas, ninguém o detinha.
— “O imperador está em perigo!”
— “Protejam Sua Majestade!”
A um brado seu, todos os seus homens o seguiram rumo ao palácio.
Num instante, do lado de fora das muralhas, o sangue corria em rios.
Tal é o golpe palaciano, digno dos anais da história.
Abrindo caminho a ferro e sangue, Gu Mu galopou até os umbrais dos aposentos imperiais.
No interior, silêncio absoluto, como se o massacre lá fora não tivesse relação alguma.
Mas Gu Mu sabia: era graças ao sangue em sua lança e ao sacrifício dos que o seguiam que ali podia, enfim, contemplar o imperador em seus últimos momentos.
Talvez, de fato, fosse a última vez.
Ao empurrar a porta dos aposentos, ouviu atrás do biombo a tosse do imperador.
A voz senil ressoou: “Dizes... que os dois filhos que me deste, não são meus?”
Novo acesso de tosse, agora com sangue.
Gu Mu correu ao leito do imperador, segurando-lhe a mão: “Majestade, vosso filho tarda, mas chegou para vos salvar!”
Os olhos do imperador, antes tomados de desespero, brilharam por um instante.
Na iminência da morte, havia ainda um príncipe, lá fora, lutando por ele — o último calor de sua existência.
Fitou Gu Mu demoradamente e, de súbito, sorriu: “És um bom filho.”
Com esforço, ergueu a mão para apertar com força a de Gu Mu; tombou a cabeça e fechou os olhos para sempre.
Gu Mu apertou entre os dedos o último legado do imperador.
Era meia insígnia de tigre.
O objeto que, em vida passada, todos procuraram em vão.
Talvez, na existência anterior, o imperador o escondera dentro do próprio corpo, levando-o consigo ao túmulo.
Quanto ao método, jamais alguém viria a saber.
Pois agora, estava nas mãos de Gu Mu.
A imperatriz, já precavida, mal Gu Mu esboçara qualquer reação, fez com que ministros e generais adentrassem em tropel. Empunhando o decreto imperial, proclamou a ascensão do pequeno imperador.
Seu filho, ainda sem doze anos completos.
Tudo parecia repetir o destino da vida anterior, a história retomando o curso original.
Mas Gu Mu, com a insígnia de comando apertada na mão, sabia que mudanças já se operavam; o efeito borboleta, acumulando-se pouco a pouco, acabaria por transformar radicalmente o enredo daquele mundo.
Ergueu-se, de costas para o imperador jazente, e caminhou a passos largos.
Na vida anterior, o Gu Mu original fora pego de surpresa tanto pela súbita morte do imperador quanto pelo decreto nas mãos da imperatriz.
Ainda assim, mesmo despreparado, lograra conquistar a regência, frustrando o sonho da imperatriz de ser, além de imperatriz-viúva, regente suprema.
Desta vez, não havia qualquer suspense.
Por toda parte, seus aliados erguiam-se; anos de tramóia, o sangue real, o apoio do chanceler...
Gu Mu, sob aclamações, tornou-se regente por direito próprio.
“Saudações ao Príncipe Regente!”
“Saudações ao Príncipe Regente!”
“Saudações ao Príncipe Regente!”
...
Uma multidão ajoelhava-se em uníssono.
Os que se rendiam, ascendiam em glória.
Os que não, mergulhavam no ostracismo.
Todos compreendiam: um após o outro, prostravam-se e entoavam o brado cerimonial.
Gu Mu, de lança erguida e insígnia nas mãos, via seu manto esvoaçar ao vento.
Naquele instante, era soberano sobre todos.
O sistema centralizado do poder imperial determinava que tudo sob o céu era domínio da família real.
Cada palmo de chão, cada súdito, cada cidade.
Tudo pertencia ao imperador.
Mas, sendo o imperador jovem e fraco,
tudo era, na verdade, de Gu Mu.
— “Com longos suspiros escondo as lágrimas, lamentando as agruras do povo.”
Não era uma era próspera.
O povo passava fome, tremia de frio; não raro, cadáveres juncavam as estradas; a medicina atrasada, a morte à espreita; a guerra civil, desalojando multidões...
Gu Mu, de punhos atrás das costas e lança fincada no solo, contemplava, além das muralhas e montanhas, até onde a terra se unia ao horizonte — tudo era império.
E o destino de cada súdito podia ser mudado por um único pensamento seu.
Estar acima de todos era, ao mesmo tempo, honra e responsabilidade.
Gu Mu regressou ao palácio do príncipe, escoltado por cavaleiros.
Ao chegar, todas as criadas e servidores ajoelharam-se.
“Parabéns ao Príncipe Regente! Felicidades ao Príncipe Regente!”